07/11/2009

ETC.


Eu passarinho!

Às vezes é assim: parece que a palavra não dá conta...
É assim, meio calada, que vôo pra fazer a promoção da edição portuguesa de Suíte Dama da Noite.

Quase calada (e me beliscando), mas saltitante, entro pro catálago da Coleção Sabiá, dessa editora pequena em tamanho e Grande em Tamanho, a Editora Cotovia. Nesse selo, que é dedicado à literatura brasileira contemporânea, agora sou vizinha de, entre outros, Raduan Nassar, Bernardo Carvalho, Milton Hatoum, Adélia Prado e Sérgio Sant'anna.

Sob a batuta dos queridos e destemidos editores André Jorge e Fernanda Mira Barros, com orelha (ou melhor, badana) da talentosíssima escritora (além de linda amiga e duplamente vizinha - de Record e Cotovia) Tatiana Salem Levy: Portugal AQUI estamos!

31/10/2009

ETC.


E vamos que vamos!

No dia 4 de novembro, quarta-feira que vem, estarei na Feira do Livro de Porto Alegre.

Só sei que vai ser assim:

Padaria espiritual com Manoela Sawitzki e Altair Martins: Na parede escura, retratos de damas da noite

Tenda de Pasárgada - 18h

No “cardápio” (é o que diz a programação), estaremos eu e o Altair Martins falando sobre nossos últimos livros e o que mais calhar. E em seguida:

Sessão de autógrafos de Suíte Dama da Noite

Praça de Autógrafos – 20h30

Vejo os amigos gaúchos lá?!

10/10/2009

ETC.

Pois: eu e o Paulo Rodrigues estamos no Espaço Aberto Literatura da Globonews (com Edney Silvestre) dessa semana.
A estréia foi ontem, mas há reprises: Sábado 1h30, 8h30 e 16h30; Dom: 6h05 e Seg: 12h30

E a qualquer hora, clicando aqui no site da Globonews:

Espaço Aberto Literatura

26/09/2009

ETC.

Imagem de Viajo porque preciso, volto porque te amo,
de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz




O tempo faz arrastão e não há quem o segure. Leva com ele textos que sequer foram escritos e o Prelúdios vai se tornando um prelúdio de si mesmo. Não deixa de fazer sentido. E não me queixo.
Mas ando à procura de uma dessas pesquisas recém realizadas por qualquer universidade respeitável que prove que a culpa não é minha: é o tempo que passa mais depressa. Deve existir um cientista que assine embaixo e me absolva. Agradeço se alguém mandar notícias dele.
(meus sábados de menina com a boca tingida de sacolé de uva continham décadas)

Hoje só digo duas coisas. Primeiro: que vai demorar muito pra eu me recuperar da beleza de Viajo porque preciso, volto porque te amo. Sua existência é como um desses presentes que a gente não sabe como agradecer. Porque tudo parece pouco. Já ofereci flores, chocolates e um brilhante pro Marcelo Gomes. E é pouco.

Vou cruzar todos os dedos pra que o filme entre em cartaz e muita gente levante e saia da sala antes do fim, tamanho o desconforto e a perplexidade. E vou cruzar de novo e de novo e de novo pra que sejam muito mais numerosos os tocados enormemente, e pra que a perplexidade (essa que nos devolve pra vida quando estamos em outra parte) faça com que multidões continuem nas poltronas até o moço da faxina varrer seus pés.
Bóra pra Acapulco!

Segundo: o Luciano Trigo me entrevistou e agora está tudo lá (aqui) no Máquina de Escrever, sua coluna no portal G1.

19/09/2009

ETC.

Resenha do José Castello publicada hoje no Prosa & Verso do jornal O Globo:

15/09/2009

ETC.

Essa semana participo de dois encontros cá no Rio:

Grajaú, aí vamos nós!



Lapa, em excelentes companhias.

24/08/2009

Relicário

Manuel Alvarez Bravo, 1935 - Fire workers

"A sabedoria deve saber que traz em si uma contradição: é louco viver muito sabiamente. Devemos reconhecer que, na loucura que é o amor, há a sabedoria do amor.
O amor da sabedoria - ou filosofia - tem falta de amor. O importante, na vida, é o amor. Com todos os perigos que carrega.
Isto não é suficiente. Se o mal de que sofremos e fazemos sofrer é a incompreensão de outrem, a autojustificação, a mentira de si próprio (self-deception), então a via da ética - e é aí que introduzirei a sabedoria - está no esforço de compreensão e não na condenação - no auto-exame que comporta a autocrítica e que se esforça por reconhecer a mentira de si próprio."

Edgar Morin

17/08/2009

ETC.


Perdoem se ando monotemática, mas, definitivamente, não consigo evitar...

Na Zero Hora de 05 de agosto, Carlos André Moreira escreveu sobre Suíte Dama da Noite a belíssima resenha/reportagem:
"Uma paixão vivida à sombra".


EM BREVE: LANÇAMENTO NO RIO DE JANEIRO!

13/08/2009

ETC.

Mais Suíte.

Veja no Estúdio i, da Globonews, de hoje, comentário do João Paulo Cuenca sobre o livro.

Clique ali ou aqui.

02/08/2009

Relicário




Performance de teatro-dança de Biño Sauitzvy (meu irmão, meu amigo, meu orgulho) e Luciana Dariano.

ETC.

"O amor numa redoma distante do cotidiano":
É o título da resenha que Marcio Renato dos Santos escreveu sobre Suíte e foi publicada hoje no jornal Gazeta do Povo, do Paraná.
Para ler clique aqui.

E porque ando muito noticiosa, me desculpo dividindo Cecília, que há dias não me sai da cabeça:

Noções

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...

Cecília Meireles

25/07/2009

ETC.

Madame Bovary de Claude Chabrol



Entrevista para o site da Editora Record
Por Dirceu Alves Jr.

Suíte Dama da Noite


O amor fadado a uma eterna espera sob a perspectiva feminina. Foi a partir desse foco intimista que a gaúcha Manoela Sawitzki, 31 anos, criou Suíte Dama da Noite, seu segundo romance. A protagonista é Júlia, uma mulher mal-resolvida que reencontra o amor de adolescência nos braços de outra e, pior ainda, às vésperas do casamento. Inspirada nas heroínas trágicas, Manoela construiu uma personagem que se aproxima daquelas eternizadas por autoras como Clarice Lispector e Lya Luft em uma obra que promete vida longa a sua escrita.


Como surgiu a idéia de Suíte Dama da Noite?

Primeiro veio da vontade de entender melhor a espera amorosa. Fala-se muito sobre o amor, como começa e acaba, mas aquilo que o precede, a espera, o hiato entre o desejo e a realização pode ser uma coisa brutal. Há um texto que li quando era menina que me impressionou... Fiquei tão tocada que não devolvia o livro à Biblioteca Pública e acabei convocada pela rádio da minha cidade a prestar contas. Era o discurso de Aristófanes sobre o amor, em O Banquete, do Platão. Peguei esse livro sem nem saber direito de que se tratava e achei tudo aborrecido até chegar nessa história. Aquele negócio de um todo dividido que se procura incessantemente, da condenação à incompletude, etc., me pôs às lágrimas. É a lógica dos contos de fadas. Toda criança que ouve ou lê essas histórias sobre mocinhas borralheiras ou adormecidas à espera do despertar, da salvação através de um príncipe acaba contaminada por essa lógica. Os meninos salvam e desposam, as meninas padecem e esperam, certo? O final feliz é condicionado pelo encontro. Estamos todos impregnados com essa sistemática – condenados por ela. Júlia, a personagem principal, é uma personificação da espera, da sensação de incompletude, do estado anterior à individuação.

Você tem experiências no teatro e no cinema. De que forma essas linguagens entram em sua literatura?

Primeiro veio a literatura, depois o teatro e o cinema. Mas desde criança me interesso muito pelos três, ainda que tenha crescido em Santo Ângelo, uma cidade de interior onde havia pouco acesso a qualquer um. Só que eu vivia atrás de leituras e lia o que aparecia, criei um grupo de teatro na escola e assim fazíamos nossas próprias peças, descobria VHS empoeirados numa locadora. Mas a literatura foi o que eu levei a sério mais cedo. A primeira peça que escrevi, lá por 2004, era muito literária. Só quando ouvi a tal primeira peça encenada, fui entendendo que precisava deixar espaço para a ação, que um silêncio pode ser mais precioso que uma frase bem escrita. Em cinema, só o que fiz foi escrever o roteiro de um longa com o cineasta Rodrigo John, mas o projeto ainda é embrionário. Essa experiência só reforçou o que já estava entendendo e aprendendo com o exercício de escrever peças: querer ser menos barroca, mais sutil.

Como começou sua ligação com a literatura? Esse é o segundo romance, certo?


Começou quando eu tinha quatro, cinco anos. Infernizava minhas irmãs para que me ensinassem a ler e a escrever porque... não sei bem, porque eu precisava. Simples assim. Desde cedo gostava de ler de tudo e adorava inventar histórias também. Às vezes acabava até sendo um pouco mentirosa, mas tinha inocência nessas mentiras, era um jeito de ficcionalizar a vida quando ela não podia me satisfazer. Aos poucos fui fazendo a passagem da mentira pra ficção. Escrevia poeminhas que publicava num jornal da cidade, declamava na escola nos eventos especiais, roteiros de peças, tentativas de contos e novelas, até que lá pelos 24 anos tive o Nuvens de Magalhães, meu primeiro romance, publicado pela Mercado Aberto, editora de Porto Alegre.

Júlia traz todos os elementos de uma heroína trágica. Você inspirou-se em outras personagens para criá-la?


A vida é trágica, não é? A vida carrega a morte, o começo carrega o fim, toda coisa tem esse avesso irremediável. Heroínas românticas (e trágicas) como Madame Bovary, Dama das Camélias, Isolda, Julieta, Ofélia, Madame Butterfly fazem parte do imaginário universal. Júlia tem um pouco de cada uma delas, embora apresente algo que talvez seja um tanto distinto: apesar de ser movida pela paixão, ela consegue realmente ser ardilosa, cerebral, até friamente objetiva na tentativa de realizar o seu desejo. Ela é racional mesmo na sua irracionalidade, ainda que pague um preço alto internamente. A Júlia sabe mentir.

A literatura brasileira tem tradição de grandes escritoras, como Clarice Lispector, por exemplo, que retratam mulheres fortes. Você acha que hoje essas personagens fortes estão menos comuns e as suas contemporâneas se preocupam mais com as tramas, com a ação?


Pra ser franca, ainda não consegui ler a maior parte das minhas contemporâneas, então não posso ter uma noção nítida de um todo. Li vários escritores da minha geração pela primeira vez de dois anos pra cá. Mas senti uma afinidade tremenda com a personagem e a escrita da Tatiana Salem Levy em A Chave de Casa. Arrisco dizer que a gente vive uma época factual demais, o tempo nunca foi tão esmagador, a velocidade que liga o fato à informação é vertiginosa. É muito difícil o sujeito se achar no meio desse redemoinho, acabamos todos escravizados pelos fatos, pelas nossas pequenas tramas, pela imensa trama global. Nossa época é movida pela ansiedade porque é muito pautada pela idéia de resultado, de consumo, de mercado. Um ansioso tem pressa e quem tem pressa demais não consegue se elaborar nem elaborar o mundo à sua volta.

Suíte Dama da Noite é um romance de poucos personagens. Você consegue imaginá-lo no palco?


Nunca pensei, mas consigo imaginá-lo num filme. São poucos personagens porque se trata de uma história parcial: só cabe nesse enredo o que interessa à Júlia. O narrador a conhece bem, mas só é capaz de enxergar aquilo que ela também vê. Quanto a mim, fazer esse corte vertical, me aprofundar nesse personagem mais que em qualquer outro, foi uma decisão. Eu gosto de trabalhar com poucos personagens. Prefiro assim a correr o risco de não dar conta. Mas estou me arriscando mais em Bons Meninos, romance que comecei a escrever no ano passado. Lá são três personagens principais, cada um com seu próprio núcleo pessoal, mais os cruzamentos entre eles e pelo menos três narrativas diferentes. Sem contar que agora são três personagens masculinos no centro do enredo.

É mais confortável falar sobre uma mulher por ser obviamente um território conhecido?

Uma mulher pode falar de outra e continuar falando de si. O mesmo vale entre homens, claro. É mais fácil, sim, ainda que nem sempre seja confortável, falar de si ou daquilo que se assemelha, que converge. Difícil é abandonar-se pra se colocar no lugar do outro. É fácil supor, pressupor, chutar, julgar verticalmente na ilusão e na pretensão de ser um entendedor da alma humana. Num momento da história, Júlia diz pro Klaus que “ninguém sabe nada assim tão irrevogável sobre o outro”. Concordo com ela, seja esse outro homem ou mulher. Acho a psicologia masculina tão desafiadora quanto a feminina. Cada história que escrevi foi um passo, cada passo uma tentativa de entendimento. Escrever dá essa possibilidade maravilhosa de se colocar num papel diferente, de ser muitos e voltar a ser um com um repertório mais amplo. Enfim, me interessa o que me é estranho e incompreensível. Não fosse pelo desafio, não seria tão prazeroso.

O livro traz uma visão pessimista do amor, não?


Eu diria que o livro traz uma visão realista sobre os equívocos que cometemos e que, por descuido ou desconhecimento, gostamos de chamar de amor. No fundo, não é nele que fracassamos e sim na sua tentativa. Não acredito que exista fracasso no amor: o sentimento amoroso está acima da nossa noção de êxito ou derrota. O amor é a vitória absoluta. Na verdade, tenho uma visão ultra otimista sobre o assunto: pra mim o amor é insuperável, indestrutível. Eu tenho escrito muito sobre o equívoco, o erro, sim, mas isso porque a inspiração, a motivação pra escrever vem da vida, e a vida está repleta de erros e equívocos. Quanto ao livro: além dos lances equivocados, há o amor da Júlia e do pai, de Cândida pelo cunhado. O amor realizado está ali também.

A tentativa de redenção da personagem pode ser uma tentativa de compensação por sua vida tão dura?

Eu cheguei a cogitar finais escabrosos pra Júlia, mas eles não encaixavam. Um dia as tais cenas finais vieram e me fulminaram. Não sei se dá pra chamar aquilo de redenção, gostaria que sim, porque torço pela Júlia, como torço por mim e por muita gente ao meu redor que está procurando respostas, que tenta encontrar um sentido. Não dá pra falar muito no final sem estragar a surpresa que ele traz. Eu fiquei muito surpresa quando entendi que só poderia ser daquele jeito.

*

Suíte Dama da Noite está na seleção Bravo!
dos melhores lançamentos de julho.



06/07/2009

ETC.


NAS LIVRARIAS!


"(...) Que olhar espera Júlia? Que arrebatadora ternura? “Um porto onde pudesse atracar era a engrenagem que mantinha Júlia Capovilla na linha da vida cotidiana.” Mas o que é a segurança senão um cais efémero, fugidío? Quebrando amarras para depois se reencontrar, questionando a vida pelo lado de dentro, Júlia vai juntando duas palavras no milagre de uma só: a vida, o amor...

Manoela Sawitzki inscreve assim, na literatura contemporânea brasileira, um poderoso retrato das querenças, relações e contradições humanas, partindo do olho de um oculto furacão chamado Júlia Capovilla."

Ondjaki


06/06/2009

Relicário

Sarah Moon



"Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome."

Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de "minha vida"
Caio Fernando Abreu, em 1986.

30/05/2009

ETC.

Bruno Kurru


Está chegando a hora.

Vá até a saideira da revista Bravo! de junho e encontre este trecho inédito de Suíte Dama da Noite, meu romance que chega às livrarias no finalzinho do mês.
Ilustrações do Bruno Kurru.

13/05/2009

ETC.

John Gutmann

E por falar em prelúdios, daqui a pouco venho contar que Suíte Dama da Noite, meu segundo romance, sai pela editora Record, lá pela virada de junho pra julho.

Enquanto o segundo não chega, o terceiro dá os primeiros sinais de vida (tenho televisão em casa, sim, senhor). Pra quem é chegado numa ecografia, a partir de hoje tem trecho inédito de Bons Meninos, o terceiro da prole, lá no
Prosa Online.



02/05/2009

ETC.




Olha o peixe fresco!

Na Bravo! de maio (que traz uma conversa imperdível de Armando Antenore com Fernanda Montenegro), falo sobre as peças Viver sem tempos mortos e In on It.

29/04/2009

Relicário

23/04/2009

Caixa

Sarah Moon


Carta ao Samir

Releio umas das tuas últimas mensagens. Uma mensagem curta em linhas, mas imensa em alcance. Releio de novo e agora já é outra. Já foi muitas, meu amigo. Aqui também respiro fundo. Transporto tudo o que é a minha vida hoje pra sacada – os livros, o bloco e a caneta, a xícara de café (minha caixa de brinquedos) – estendo a rede, deixo o laptop, os cigarros e o cinzeiro ao alcance, ainda que não precise deles. Decido te escrever primeiro com papel e caneta, ainda que o pulso estranhe o movimento, ainda que dê o dobro de trabalho e cada vez mais estranhe a letra. Também olho a paisagem e aqui ela é de uma beleza monstruosa, que se impõe e confronta os olhos. Uma amiga, quando me visita, diz que tem medo da desproporção desta pedra (a noite o morro parece a sombra de um gigante) e sempre se senta de costas pra ela. Acho graça. Olho (meio afrontativa) pro morro e tento repetir teu gesto, mas é preciso então ousar o contrário: entrevistar o feio por trás do belo. O que é mais difícil?

Conversar mais detidamente? Que alívio encontrar entre as tuas palavras a explicação pro descaramento da minha ausência. Será que te alertei antes que isso me acontece? Que sumo mesmo e depois fico com cara de pamonha sem saber como pedir tantas desculpas? Sim, porque você não é o único que fica sem notícias, e elas, as desculpas, ainda precisam de certa especificidade – no fundo, esse tipo de desculpas é mais uma demanda dos outros, não? É que comigo já acertei as contas: as coisas ficam mais simples quando a gente assume a própria loucura, não tenta ser querido e compreensível o tempo inteiro. Juro que tentei muito e por isso sei que quase não compensa, que pequenas deselegâncias com o mundo evitam grandes injustiças com a gente mesmo.

Ouvir com mais atenção? Quando isso é possível, quando o barulho (o de fora e o dentro) não consome todo o detalhe, aí a gente entende como ouve pouco e como ouvir pode ser bom. Sobretudo (eu tenho pensado tanto sobre isso) como aprendizagem. Me refiro, é claro, não a tudo que é dito, mas à necessidade de também aprender a não dizer de vez em quando. Aprender com a falta de auto-censura do outro a não ter tanta necessidade de dizer. E veja você que quem escreve agora não o faz enquanto monja sereníssima e meditativa sob a figueira milenar. Só eu sei o quanto não dizer me pesa. Muitas vezes preciso me amordaçar e me trancar numa sela incomunicável pra modo de não ceder a qualquer impulso besta de arrombar o ouvido alheio.

Não, a gente não pode mesmo deter o tempo. E que alívio! Porque se pudéssemos, acho que perderíamos mais. Acompanhá-lo, como você disse, talvez seja a grande sabedoria. Se retirar dele, um exercício e tanto. Mas quando você fala sobre a eternidade, confesso que paro tudo, me esforço, mas não tenho conseguido sequer captar a ideia. O que é que ainda pode ser eterno? Queria que alguém me pegasse pela mão e me mostrasse, porque quase tudo o que vejo ao redor me parece perecível e frágil, a intensidade saiu de moda, percebeu?!, e não consigo conceber uma eternidade morna, frouxa (sou eu aquele elefante na sala dos cristais). Por isso, no lugar da eternidade, é o instante o que mais me assombra ultimamente: esses milhões de partículas de momentos perdidos, frações que morrem intocadas. Sei que uma vida de intensidades sem trégua nos mataria de cansaço na primeira esquina, que também é ótimo dormir, ver televisão, beber chopes e assistir filmes do Monty Python, acontece que... não sei, certas porções da vida deveriam ser consumidas com gula, sem pudor, menos travas, mais entrega.

Ou será que tou misturando as receitas? Correndo o tal risco que você mencionou: do aniquilamento da memória?!

Talvez seja só isso mesmo. E no fim a gente precisa é ser maior que a própria memória pra que a vida se realize, siga, pra que novas memórias sejam erguidas, outras linhas escritas e os ciclos se completem.

Largo o bloco, fico algum tempo sem escrever, me balanço na rede e também tomo meu café aos poucos. Quase me sinto calma quando um pássaro preto, enorme, entra na mata a toda velocidade e faz um barulho danado lá dentro. Sem pensar direito, deixo a xícara de lado e pego, meio urgente, o bloco pra escrever alguma coisa que sei que não faz parte da carta pra você: “Não sei dizer quais eram os pássaros, nem se poderia haver lobos soltos no pátio àquela altura do dia. Não posso mais me fiar na certeza, creia, porque o tempo há de decretar outras normas. Nem juiz de concretas ciências, nem leigo que se sujeita a presságios: do hoje apenas esta neblina, breves passos, paradas. E horas que passam à revelia do que foi deixado.”

E é tudo. Talvez uma nota pro romance novo. Talvez uma mostra da eternidade que você menciona.

Volto à tua mensagem e me detenho na última linha: “Então deixo de repetir o passado. Então o novo pode vir.”

Você estava falando sobre mim ou sobre você?!

Com meu carinho, sempre,

M.


18/04/2009

Escada

The time lapse



12/04/2009

Relicário

05/04/2009

Caixa

O último tango em Paris


"O aroma de lavanda no corredor. Lavanda e pinho. Poderia dizer que. Mais precisamente. Amadeirado, encorpado, ligeiramente austero. Terça-feira é o prenúncio, talvez a redenção. O aspirador ligado, o toque de alvorada. Novos dias, dias possíveis. Josefa chega e instaura a ordem. Os restos atravessarão compartimentos, túneis, ruas, para serem enterrados longe da vista, as sujeiras escorrerão pelo ralo. A superfície brilhará. Está tudo bem.

- Seu Carlos?

- Precisamos de um multiprocessador desses, Josefa?

- Deus me livre. Preciso de nada disso, não, senhor.

- É incrível, dá pra fazer suco de abacaxi sem tirar a casca!

- O senhor não gosta de abacaxi, não, seu Carlos.

- Talvez comece a gostar. As pessoas mudam, não mudam?

- O senhor pode assistir lá na sala? Só falta aqui e tou agoniada com o médico do menino.

Josefa remove o mofo dos rejuntes, o pó da estante, o limo da pia, mas não a craca depressiva incrustada no sofá do escritório. Olha para ela com pesar e impaciência. A craca, sabendo-se vigiada, fixa-se no canal de televendas. A faxineira, num muxoxo, lhe dá as costas e volta em seguida, nem cinco segundos, com o cano do aspirador em punho, como se apontasse um fuzil. A craca, incrédula ou suicida, zapeia e estaciona na TV Assembléia.

- Vai começar uma votação. Faça de conta que sou um ácaro gigante.

Josefa ri e logo disfarça. Dentadura imensa, branquíssima.

- O senhor tem dormido? Tá com uma cara... Os olhos fundos.

- Perda de tempo. Einstein quase não dormia.

- Tá sol, seu Carlos! Isso de ficar aqui encerrado não há de fazer bem.

- Sol dá câncer, Zefa.

- E o trabalho, seu Carlos?

- É meu ano sabático.

O telefone toca. Toca. Toca. Toca. Toca.

- Não vai atender? Esse trem tocou a manhã todinha.

- Ignora. É engano.

- E o senhor é adivinho agora, é?

- Telemarketing. Eu sei, posso pressentir pelo toque. Ó, escuta:

- Nunca vi gente que nunca atende o telefone. Parece doido.

E o telefone já não toca. Crianças gritam no pátio da escola.

- E se fosse dona Cristina?

- Minha mãe nem sabe o número. E é falta de educação ligar pra casa de alguém sem avisar.

- Deus me livre, que cabeça mais dura! E essa bagunça?!

- Deixa a mesa como tá, Zefa.

- E se fosse dona Ana?

- Não era.

- E se fosse?

- Você tem ido lá?

Ela franze a testa, resmunga, inaudível, sacode a cabeça e abandona o pano sobre a borda do balde. Liga o aspirador. Potência máxima.

- Zefa!

- Poramordejisuis, não me mete no meio disso, não, seu Carlos!

- Só perguntei se tem ido no apartamento da Ana, mulher!

- Nas quintas. Meio dia. Agora me deixa, que o menino tem médico e tou cheia de roupa pra passar.

- Ela tá bem?

- Tá meia assim, né...

- Assim como?

- Meia pra baixo, meia magra...

- E?

- Não quero rolo pro meu lado.

- Ela pergunta por mim?

- Pergunta nada, não, senhor.

- E você tem visto alguém estranho por lá?

- Assim o senhor me complica, seu Carlos. Chispa pra sala, poramordejisuis.

- Então viu!

- Vi nada.

- Viu, sim, te conheço.

- ...

- Zefa!

- O senhor tá impossível! Vai pra praia, seu Carlos, me deixa trabalhar!

- Prefiro a tua companhia.

*

Já passava das duas, os telefones tocavam. E deixávamos que tocassem, deitados lado a lado, ao alcance dos dedos, da próxima onda. Ana ficou calada de repente. Senti que tinha algo a dizer. Algo que eu não gostaria de ouvir. Perguntei, vago e imediatamente arrependido. Eu não entendo como você consegue gozar em silêncio, ela disse, depois de longa pausa, olhando pro teto. Talvez esperasse que eu pudesse mesmo lhe explicar. Ana sempre esperava por explicações que não podia lhe dar. Não conseguia. Acho triste, arrematou, como que pra me punir pela ausência de resposta. E eu persisti numa mudez débil enquanto tentava pegar sua mão. Estava fria e rígida. Ana estava morrendo ao meu lado."

**


Trecho de um conto que fala de certo casal que divide a mesma faxineira depois da separação.
Entre outras coisas.
Ele fará parte de uma coletânea que...
O resto é segredo.

02/04/2009

Relicário

27/03/2009

Escada

Sarah Moon


“A minha fé toma o exemplo na de Pascal: respondo à incerteza e à contradição pela aposta. A fé improvável em Deus transformou-se para mim na fé improvável num mundo menos bárbaro, numa inteligência menos cega e na fé imperturbável na verdade do amor. Nunca consegui encerrar-me numa fé. A minha fé sempre conservou em si a dúvida. Nunca consegui acreditar como a maioria acredita, nem mesmo quando estava sob o impulso messiânico da minha resistência de guerra (e a dúvida veio rapidamente corroer a crença). Mas nunca consegui encerrar-me na dúvida, e a minha dúvida sempre conservou em si a fé.

O meu problema foi sempre o de salvar a tolerância no interior da fé (a esperança), salvar a fé (a esperança) no interior da tolerância. (...) O meu misticismo, que surgiu como emoção perante o mistério das coisas, manifesta-se repentinamente ao olhar um escaravelho, um gato, uma margarida, um rosto. Manifesta-se na experiência do êxtase, da embriaguez, da poesia, da música. Concentra-se no Amor.

Continuo a sentir a esperança messiânica de uma redenção num outro mundo. Mas este messianismo está recoberto, virtualizado, contido. A Grande Promessa está morta: “Armados com uma paciência ardente, entraremos nas esplêndidas cidades!”. E é pelo mesmo Rimbaud que me vejo “atirado por terra, com um dever para procurar e a rugosa realidade para abraçar”. Perdi a Grande Promessa, mas não perdi a esperança. (...)

Assim, mais do que nunca e plenamente, vivo, experimento e alimento-me com a permanente dialógica entre fé e ceticismo, misticismo e racionalismo. O trabalho nas contradições continua. Eis a sua conseqüência existencial: Viver no duelo dos contrários, quer dizer, nem na duplicidade sem consciência nem no “justo meio”, mas na medida e na desmedida; não na morna resignação, mas na esperança e no desespero, não num vago tédio ou num vago interesse perante a vida, mas no horror e no maravilhamento.”


...mais de Edgar Morin, em Os meus demônios

23/03/2009

Escada

Sophie Calle


"Quem sou eu? A minha singularidade se dissolve quando a examino e, por fim, fico convencido de que a minha singularidade vem de uma ausência de singularidade. Tenho mesmo em mim algo de mimético que me impele a ser como os outros. Na Itália sinto-me italiano e gostaria que os italianos me sentissem como participante na sua italianidade. Outro dia, ao falar a um auditório da Champanha senti-me champanhizado. Ah sim, gostaria de ser como eles. Adoro ser integrado e, contudo, não sou inteiramente de uns e dos outros. Poderia ser de todo o lado, mas nem por isso me sinto de alguma parte, estou enraizado assim.

Não é o exercício de um talento singular nem a posse de uma admirável verdade que me distinguem. Se me distingo é pelo uso não inibido ou cristalizado de uma máquina cerebral comum e pela minha preocupação permanente em obedecer às regras primeiras desta máquina cognitiva: ligar todo o conhecimento separado, contextualizá-lo, situar todas as verdades parciais no conjunto de que fazem parte."

Edgar Morin – Meus demônios (ed. Bertrand Brasil)

16/03/2009

Escada

27/02/2009

Janela

Sophie Calle


Da (im)possibilidade do amor

IV

Quer saber? Eu descobri o medo antes de conhecer você. Era inverno. E outono. E primavera. Verão às vezes. Era dia, tarde, noite, madrugada: o tempo se esgueira fora enquanto o encanto se desfaz dentro. É quando o medo arromba a porta e se instala. Quando sob cada nova camada de tinta se revela o mesmo quadro mal pintado. Quando a beleza borra e acaba a certeza do belo.
O tempo passará, a conclusão seria essa. E “nunca mais” seriam jurados em vão até que a eternidade secasse a saliva. Havia um plano. Quem negaria?
Então você abriu o portão numa noite de chuva. Num domingo como tantos. Noite, chuva, o táxi me deixando na rua vazia. Eu já conhecia o medo antes de você girar a chave e me deixar entrar no edifício. E eu não te conhecia.
Talvez tenha mesmo evitado. É verdade que adiei o reencontro. Talvez fosse um novo hábito isso de evitar e adiar, como muitos. Talvez fosse a força dos dias, tardes, noites e madrugadas exclusivos, do medo passando férias em Acapulco, das batidas compassadas, dos passos firmes. Mas sorri quando teu nome surgiu entre os outros na tela. De mim, sorrisos contidos, disfarces? De ti, respostas ágeis, coincidências. Apenas pequenos esforços pra prolongar o contato, talvez. Talvez velhos truques, apenas.
Quer saber? De repente eu quase não podia explicar. Se foi a lua cheia que se exibiu entre árvores sobre a nossa mesa, se foi teu jeito de dizer tão convicto cada coisa. Se foi meu esforço de dobrar tua certeza. A bebida. O branco nas paredes. A vista da janela. O áspero dos teus dedos no meu rosto liso. Se foi o gosto da boca ou os risos que vinham dela. Não sei se foram as horas as horas as horas sem conseguir sair de um quarto claro e vazio de mundo, sem poder separar as minhas pernas das tuas pernas. Se a imposição do teu jeito, às vezes vago, às vezes límpido. As conversas possíveis, o impossível no entorno, o desejo contínuo. Se te ver dançar na avenida. Se foram os abraços ao acordar. O que é, o que pode ser.
Eu não sei por que fiquei, fui ficando, apesar do medo que descobri muito antes de você girar a chave e me convidar pra entrar. Porque havia um plano. Quem negaria?



16/02/2009

Janela

Sarah Moon


Da (im)possibilidade do amor


III

Ele disse musculação. Ela, Tai chi.

Ela pensou, então era isso, vou pedir um prato rápido, dizer que preciso acordar cedo, que tenho tanto trabalho, que o trabalho está me enlouquecendo, vou ser convincente e gentil.

Ele pediu picanha. Ela, creme de aspargos.

Ficaria com fome, sentiria o cheiro da carne e salivaria em silêncio, sorvendo seu caldo esquálido com cara de quem nunca provou outro melhor. Em casa? Tinha frios, duas fatias de pão preto, margarina: faria um sanduíche seco e, se chegasse até às dez, embora fosse otimismo seu, pegaria Veludo Azul começando na tevê. Abriria um vinho.

Ela disse Veludo Azul. Ele, Coração Valente.

Ela admitiu que, apesar do gosto massificado, havia um herói romântico em potencial do outro lado da mesa. Ele confessou que já tinha tentado, que detestava filmes confusos, personagens obscuros, tramas impossíveis.

E O Último dos Moicanos?
Ele vibrou, vibrou mesmo: os olhos se acenderam, um sorriso largo emoldurou cada palavra entusiasta sobre Daniel Day-Lewis. Puta ator, puta ator! E seu rosto ganhou cores que ela ainda não tinha visto. Tão bonito...

Ela suspendeu o suco de tangerina e pediu vinho. Ele acompanhou.
E ofereceu uma prova do seu prato. Ela experimentou um conforto estranho. Aceitou.
Uma garrafa e meia e um macarrão à putanesca depois, ela dizia Baudelaire, ele respondia Vinícius. Ela argumentava Guimarães Rosa, Borges, Cortazar, Camus, ele exaltava Stephen King. Eles se encontraram em O Iluminado e se dividiram em Carrie, a Estranha. E riram de cada discordância e dividiram o brownie com sorvete. E pegaram o mesmo táxi.

Ela disse Jardim Botânico. Ele, também.

E subiram a mesma escada. E não tomaram café nenhum. E riram do pretexto bobo. E arrancaram roupas com pressa. E se beijaram demorados e loucos sobre as almofadas.
Há tanto tempo que não se falavam, que se conheciam demasiado, que deixaram de fazer perguntas, que adivinharam respostas em refeições silenciosas.

Ela gostou dos seus braços mais fortes. Ele elogiou sua nova calma e a cor do seu vestido.
Ele foi embora de manhã bem cedo. E voltou à noite, carregado de malas.


12/02/2009

Janela

Yves Klein, Saut dans le vide



Da (im)possibilidade do amor

II


É que eu preciso te dizer que. Me fazer entender. Você entende? Há dois meses me expresso por esboços, pequenos gestos incompletos, porque. É assim. Está assim. Nem sempre me repito, se é que você imagina que. Mas contigo... Frases interditadas que, sem graça, corto com beijos pelo teu corpo. Ou nem isso. Beijo seco, quase ríspido, de boca fechada, lábios rígidos contra lábios líquidos. Porque às vezes te detesto por me fazer querer dizer qualquer coisa que nem sei ao certo se sinto. Ou se vou continuar sentindo em dois minutos, dois anos. Às vezes te detesto por me fazer ter vontade de dizer que te amo pra sempre. E você nem cobra, não investiga. Digo, não ouço tua voz me perguntando nítida o que, como, quando e por quanto tempo. Mas leio a dúvida no passeio das tuas mãos pelo meu rosto, no estalar da tua boca contra meu peito, nos teus olhares para o teto, para a lua, para a gaivota. Então fazemos silêncio e fingimos que somos cúmplices nisso enquanto nossas espadas se chocam sobre a cama. Te detesto quando sei que me tirou de um ponto de equilíbrio. Quando procuro a imagem que você enquadra na rua. Quando tenho medo de te perder por pouco ou por muito. Quando sei que não sou capaz de ser tão bom quanto decerto você imaginou no instante em que te despertei o interesse. Quando não sei o que você imaginou. E imagina.

É que preciso te dizer que talvez eu nunca consiga. Te contar que a curva do teu ombro me emociona. Que o som da tua voz me tranquiliza. Que preciso que ouça os detalhes do meu dia. Que não preciso de ti, mas te desejo intermitente, como dado imprescindível e como luxo dispensável. Que às vezes te adoro por cinco ou seis horas contínuas. E às vezes te esqueço, como forma desconhecida.

É que não posso dizer e pagar por isso na próxima esquina. É que você pode entender o contrário. É que posso repensar o contrário. E voltar atrás. E você pode não estar mais no ponto de partida. É que tenho medo, muito medo de te amar. É que tenho medo, muito medo de não saber amar.



10/02/2009

Relicário



Jan Svankmajer, Alice (1988)

05/02/2009

Janela

Eugène Atget


"O amor é um crime que não se pode realizar sem cúmplice."
Baudelaire


Da (im)possibilidade do amor

I

Tão estranho... Tão estranho, pensou, se esgueirando um pouco tonta, tateando a parede do corredor escuro como se tocasse um corpo novo. Num dia falava em tocar estrelas com Ana, em como seria fácil tocar estrelas com o braço estendido através da janela de um helicóptero. Seriam fofas ou duras? Brilhantes e branquinhas como daqui de baixo? Ana perguntava-lhe sobre as estrelas e ela, aos sete anos, inventava respostas com a segurança de quem conhece a verdade... Tão estranho agora andar sorrateira no meio da noite por aquela casa, a casa de onde não saía há dias. Pensou no seu apartamento, quinze minutos dali, no jornal acumulado diante da porta, nas contas vencidas na caixa de correspondência, nos amigos, na mãe, na irmã e na secretária do médico que deixava recados que ela não se importava em ouvir. Deviam chamar a polícia? Repreendê-la por sumir assim, sem dar notícias? Puni-la por ser insensata e egoísta? Podia voltar pro quarto, apanhar as roupas sem fazer ruídos e... ou mesmo se tropeçasse, tomasse um banho, ligasse a luz e assoviasse La vie en rose enquanto se vestisse, ele não acordaria, dormia sempre tão pesado... E a imagem do homem que pouco conhecia de bruços sobre a cama desfeita, dormindo sempre muito pesado, pesando sobre seu corpo ao acordar, atravessou-lhe feito uma lâmina. Podia chamar um táxi, deixar um bilhete dizendo que tinha sido bom, que voltaria pra casa, que tinha uma vida, que tinha plantas. Podia deixar um bilhete dizendo tchau, tou indo, não me procura mais, acabou aqui, tenho medo. Podia beijá-lo suave e gaguejar um pouco e voltar pro seu lado da cama sem dizer que estava, enfim, depois de tanto tempo em pálida indiferença, apaixonada...

Na sala, acendeu o abajur vermelho e olhou ao redor sem pressa. Espionava, sim, e achava certa graça naquilo. Entre seus próprios vestígios – a carteira de cigarros quase vazia e a caixa de fósforos, o anel de prata, a bolsa sobre as almofadas, os poemas de Rûmî – outros que não decifrava: um prendedor de cabelos cor de rosa, grampos variados dentro do vaso de cerâmica, um brinco solitário, meio hippie, uma Vogue entre Dostoievski e Auster. Outras tantas que passaram por aquele cômodo, coabitaram aquela cama. Amigas? Parentes? Mulheres de uma noite? Namoradas de anos? E detestou com convicção física tudo o que havia sido antes do último sábado. Tudo dela, seus outros amores, suas dores mal curadas, a fé perdida, e tudo dele, tudo o que mais cedo ou mais tarde pudesse vir à tona como um desses livros que folheamos esquecidos até que, de repente, lembramos da história inteira, tudo o que pudesse afastá-los do mistério de um encontro novo, de uma história sem gosto de passado na boca...


21/01/2009

Escada

John Gutmann

“A pedra morna de sol sob as minhas costas. Os garis limpam os restos da feira. Encosto a cabeça no tronco da árvore. Fecho os olhos, ofuscado pelo excesso de luz. Dificil conciliar a manhã de fora com a treva de dentro. Respirar é uma oração que nada pede, Obá humilde. Continua, já ultrapassaste o meio, não tens mais o que temer. Repara, agora é como o centro escuro da noite. O próximo movimento só pode ser em direção à luz. Ele brilhava, ele era claro, ele era frito de sol. Todos queriam não estar ali. Não se deve, não se pode querer estar em outro lugar além do que se está. Eles desejam coisas que não existem. Eles não conhecem a paixão, nem tu. A tudo isso eu chamo tontura, não prazer. Evita a vertigem. Resseca, desbasta, o limite é a nudez do osso. Além dele, se avançares, há somente poeira. Mas cuidado, exigem-se os dentes fortes que Nanã perdeu. Descobre, desvenda. Há sempre mais por trás. Que não te baste nunca uma aparência do real. Como te atreves a supor que carregas O Facho de Luz? Sei bem quanto brilha, mas te digo que serias incapaz de vencer as Iansãs do vento.”
(Sétimo fragmento da décima terceira voz)

**

“Não consegui. Do grande esforço através dos doze meses, doze signos, doze faces, só guardo essa certeza. Que tonta travessia. Tudo bem, descansa. Faz parte, não conseguir. Como Sísifo, se queres mitologias. Queres ainda? Por favor, estou farto. Brilhos baratos, as jóias eram todas falsas. Está certo, mas não quiseram te fazer mal. O mal não existe reverso do bem. Tanto faz, só peço que me deixem. Vou ficar encostado na árvore até amanhecer. Olhos abertos, feito uma vela acesa. Se ela insistir, direi que não tenho piedade alguma. Que não compreendo, não aceito nem perdôo mais a loucura. Se ele vier, pedirei que fique. Serei bom para ele. Mentira, não pedirei nem direi nada a ninguém. É indivisível, aprendi. Talvez consiga dormir. Talvez consiga acordar amanhã finalmente livre de tudo isso. Terei apenas um corpo, poucos pensamentos, todos pequenos. Sei que foi inútil quando os vejo obstinados recomeçar e recomeçar sempre. Uma serpente que morde a própria cauda, um círculo infinito de enganos, Maya. Talvez não, perdeste a fé? Não te castiga assim, está tudo em paz. Nunca houve cães. É como uma cantiga de ninar nas cinzas do fim do mundo. Um barbitúrico, se preferires. Entorpece, melancólico, te leva para longe. Já se perdeu, não há futuro. Repousa, meu amigo. Deixa-me passar a mão nos teus cabelos. Está amanhecendo. Em voz baixa, eu canto para te enganar.”
(Décimo segundo fragmento da décima terceira voz)


Caio Fernando Abreu
Dodecaedro (Triângulo das águas, Ed. Agir)


19/01/2009

Relicário

15/01/2009

ETC.

Doisneau


“Achar uma forma de acomodar todo o caos,
essa é a tarefa do artista de hoje”

Beckett


Não é nem meio-dia, ainda não saí de casa e estou atordoada como se tivesse atravessado cem anos numa mesma manhã. Tudo o que fiz foi apanhar o jornal na porta, ligar e desligar a televisão e checar os emails. A idéia era tomar um café, trabalhar no meu livro, talvez ir à feira, mas o peito se oprime e as mãos pesam sob os escombros das manchetes do dia: enquanto uma guerra entre milícias matou mais dois em Jacarepaguá e Campo Grande, uma vereadora nomeou um parente miliciano; o senhor Presidente do STF mandou soltar Marcos Valério; o conflito entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza já produziu mais de mil cadáveres (a maioria civis, mais de duas centenas de crianças) em menos de um mês desde o fim de uma trégua mentirosa. Mas, ora bolas, o que importa se, enquanto isso, você pode ver uma imagem manipulada por computador da Amy Winehouse obesa? Se você pode pagar para acompanhar (24 horas por dia, sete dias por semana!) as aventuras de dezoito marmanjos confinados numa casa equipada com piscina e academia OU, a um toque no teclado, descobrir que “Naiá confunde sabonete íntimo com aromatizador de ambiente” e “Mirla era chamada de barata tonta quando criança”?! Por que, afinal, se ocupar das pilhas de corpos em Gaza, das pilhas de corpos nas pilhas de favelas brasileiras, dos sem-teto e cheiradores de cola e fumadores de crack de Copacabana e do centro de Porto Alegre, do prefeito que autoriza a instalação de lombadas em áreas violentas, dos políticos que pouco-quase-nada farão de concreto para desestimular a violência em suas cidades pelos próximos quatro anos, se ainda não sabemos se Flora realmente será morta com um tiro até sexta-feira?! Por que se sujar com o lado b do mundo enquanto a “mãe do botox promete criar um produto que deixará seus cílios volumosos”, se você pode escolher saber que celebridade lanchou no Leblon entre nove e dez da manhã de ontem?!

A verdade é que hoje eu acordei querendo escrever uma história sobre meninos que se perdem quando viram homens. Meninos que descobrem o amor e homens que desaprendem a amar. Hoje eu acordei ainda um pouco inocente, querendo escrever alguma coisa que fizesse sentido, sentido pra mim, sobretudo, no meu profundo egoísmo de tentar reter a vida e entendê-la, mas deixei o mundo entrar e a ausência de sentido ganhou a partida. Tudo o que fiz foi verter todo o embaraço nesse texto ruim e chorar um pouco de cansaço e tristeza...


11/01/2009

Relicário

09/01/2009

ETC.




Gente amiga, fiz dobradinha na Revista Aplauso deste mês: tem entrevista com Domingos Oliveira e resenha de A Chave de Casa, da Tatiana Salem Levy.


Como não posso postar aqui (não ainda) a entrevista inteira (tampouco a resenha), e vontade não me falta, vou servir pelo menos uma entrada.

Pedi pra algumas pessoas, como Fabiano de Souza e Selton Mello, fazerem perguntas ao Domingos. Essa veio do JP Cuenca:

João Paulo Cuenca: Quando eu vou parar de sofrer pelas mulheres?

Domingos Oliveira: Vou ter que dar uma resposta direta. Nunca. O amor não é pra trazer felicidade, não é pra trazer paz, não é feito isso, é uma injustiça pedir isso a dele, é uma violência pedir isso dele. O amor dá muitas outras coisas, mas não a felicidade, muitas outras. A felicidade, ao contrário é um atributo da solidão, a paz é um atributo da solidão.


**

Como não tenho aparecido muito por aqui, aproveito a deixa pra bater panela pra oficina do queridíssimo Marcelino Freire, que vai desenrolar na semana que vem na Livraria Odeon.

NARRATIVAS BREVES - E OUTRAS NEM TANTO
MARCELINO FREIRE
Participação Especial: LIRINHA
Horário: 10h
Lotação Máxima: 25 VAGAS.
Local: Livraria Odeon. Praça Floriano, 7 (mezanino do Cinema Odeon Petrobras). Cinelândia, Centro, RJ.
Informações: contato@livrariaodeon.com.br / 8763-0157 (Ana Maria)
As vagas podem ser reservadas pelo email contato@livrariaodeon.com.br.

04/01/2009

Relicário

27/12/2008

ETC.

Pin-up de Peter Driben

Inspiradas em ex-stripper, escritoras tiram a roupa em microcontos

Anna Carolina Braile, JB Online

RIO - Esta é uma história real. Diablo Cody, a vencedora do Oscar de melhor roteiro de 2008, por Juno, estava prestes a completar 25 anos e ainda se sentia uma adolescente com formigas na calcinha. Medo de cruzar a fronteira para o lado negro dos 20 anos e perder a última chance de fazer uma grande loucura sem ter que lidar com responsabilidades da vida adulta. Para fugir do tédio, decidiu tirar a roupa em bares sujos de Minnesota – rebolando por notas de 10 dólares e passando noites em claro agarrada a um poste, ou qualquer coisa vertical e dura, depois escrever o livro Minha vida de stripper, ganhar o tal prêmio da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood e, e aí sim, fazer a vida valer a pena.

Longe de ser uma diva do sexo, Diablo não é o tipo que chama a atenção ao atravessar a rua e jura – no livro – que, até ter decidido virar stripper, nas horas vagas era praticamente beata. Afinal, nunca havia andado de moto, engravidado por acidente ou feito um aborto, jogado bebida na cara de alguém no meio de um porre, roubado batom de uma loja bacana. Pior: recebeu cada um dos sacramentos católicos, com exceção do matrimônio e da extrema-unção, e terminou a faculdade em exatamente oito semestres. “Podia sentir meu fogo apagando. Minha crise dos 25 anos pesou no estômago como um cheeseburguer duplo. Acho que esta é uma das razões para eu ter acabado seminua numa boate”, escreve no livro, em que conta absolutamente tudo sobre a experiência, que deve ser muito mais interessante que fazer mochilão pela Europa, intercâmbio na Nova Zelândia, cortar o cabelo curtíssimo, ou essas coisas que as garotas com medo de chegar aos 30 costumam fazer.

Dá até vontade de seguir as sugestões da moça. Literalmente. Ela lista as 10 melhores e piores músicas para tirar a roupa – a melhor fica com Remix to ignition, de R. Kelly, seguida por Purple rain, do Prince: “Arqueie suas costas como se o próprio Prince estivesse derramando glitter no seu abdômen. Tem mais efeito em lojas de suco quase vazias, que promovem uma atmosfera emocionante”, escreve. Será? Acho que não... O fato é que Diablo vive com a mesma intensidade com que escreve. O característico humor ácido, rápido e pra lá de moderninho de Juno é usado com a ousadia de quem passa longe de ser uma diva do sexo, mas tem coragem de leiloar a própria calcinha ao som de Honky tonk woman, dos Rolling Stones, ao mesmo tempo em que trabalha como redatora em uma agência de publicidade. E ela conta tudo sobre a indústria do sexo pago, com os mínimos detalhes. Talvez picantes até demais, mas que nas palavras de Diablo soam mais como conversa de garotas moderninhas que papo de filme pornô.

Pois foi com esse espírito, digamos, com a Diablo Cody no corpo, que convidamos escritoras brasileiras para se despirem de moralismos e se sentirem na pele de uma stripper. Em microcontos de cerca de 20 linhas, nossas divas deveriam escrever experiências de um striptease. A poeta Maria Rezende levou a brincadeira para o lado romântico, sem deixar de ser exibida. A consagradíssima Ana Miranda transforma o ritual em sagrado, praticamente místico. A autora teatral e romancista Manoela Sawitzki imagina, da sacada de um apartamento, a negociação com o contratante do serviço. A sempre moderna Ivana Arruda Leite faz uma enfermeira tirar o uniforme ao som de Roberto. Todas elas e Diablo colocaram em suas personagens a adrenalina pulsante de quem expõe suas maiores vulnerabilidades em público.

Vejamos:

Perninhas felpudas

Por Diablo Cody

Diamante e eu subimos para o segundo andar a fim de praticar movimentos no poste. Ela parecia a miss Perfeição Adolescente com a sua imensa cortina de cabelo louro e liso e biquíni verde-grama. Não achava que tinha aparência má. Interiormente hostil? Definitivamente. Mas eu tinha decidido que meu rosto era uma máscara convincente de sensualidade beatífica. A miss América adolescente se agarrou a um dos postes e tentou escalá-lo com seus exclusivos sapatos de festa brancos. Ela prontamente deslizou para baixo e perdeu o equilíbrio. Com suas perninhas felpudas cambaleantes, ela me lembrava o Bambi.

– Ai... – disse ela.

– Deixa eu tentar – disse eu, executando um giro desajeitado. Estava surpresa com o quanto era difícil. As garotas no palco sempre pareciam tão lânguidas e leves quando trabalhavam com o poste. Ao contrário, meu corpo parecia um saco antropomórfico de merda de gato molhada. Eu mal conseguia levantar meu próprio peso para sair do chão.

– Deve ter um macete pra fazer isso. (...)

Assim, começaram as minhas funções no Big Pink. A primeira coisa que percebi era como as garotas dançavam de maneira diferente do Schieks. Elas não apenas ficavam completamente nuas, mas faziam shows ginecológicos completos.

Exibida

Por Maria Rezende, autora de 'Bendita Palavra'

Desci as escadas como se entrasse num palco. A luz de emergência pareceu concordar, acendendo bem na hora em que entramos, canhão de luz insuspeito. O cenário era limpo: nada de objetos, nenhum figurino. A platéia lotada era você descendo comigo os degraus, você, o homem antigo, o mesmo homem por tantos anos desejado e ainda tanto ali naquela hora, na feiúra nua daquela parte dos edifícios que não é feita pra aparecer. “Eu sou feita pra aparecer”, pensei. Exibida, desde pequeninha, e de repente o que era ofensivo (“Não sou exibida!”, eu gritava entre lágrimas de humilhação) virava fonte de poder. A alça da blusa escorregou de leve ombro abaixo e seu olho ávido abriu num só lance meu sorriso e o zíper da saia. Subi três degraus pra mostrar melhor as pernas enquanto o tecido escorregava, e me abaixei pra tirar a sandália sem perder de vista seu rosto, meu aplauso em palco aberto. “Exibida”, você dizia no silêncio do tesão contido, e desabotoando o soutien eu te respondia num êxtase sem palavras: “Sim, meu amor, exibida, exibida!”.

Amina dança para Flaubert...

Por Ana Miranda, autora de 'Desmundo'

...dança é uma contemplação do interior da selvageria do corpo haialaia das nostalgias da memória, a encarnação da infinita luxúria, a obediência à paixão e ao perverso temperamento feminino, Ai quer sabe? Eu vai, tomei duas taças de árak e voltei ao meio da roda, vendei os olhos dos músicos, não sabia o que ia dançar, não sabia mesmo, não tinha a intenção de dançar a al nahal, mas por que então vendei os olhos dos músicos? e dancei, fechei os olhos e vieram os camelos famintos na areia da Síria, a pelugem ferida, mulas mortas cobertas de poeira, cães que pareciam chacais que vinham à noite aterrorizar com o uivo aaauuuuuu, carcaças de asnos, camelos mortos, risadas de camelos comidos pelo rakham ukab amarelo, abri os olhos e vi, ele jogou dinheiro aos meus pés, eu pisei o dinheirinho, fui de um a outro lado no kanon, pandeiro, nái, fazia ele virar a cabeça, um cachorrinho olhando sua dona, veil violeta, correntes tauxiadas correndo minha pele cabila, fazia ele olhar meus braços e mãos e pagar a peso de ouro sua fraqueza, sem ter piedade dele, dançarina de nenhuma maneira pode responder por palavras, assim com a dança como sei de falar, sua aparência era mais de idolatria que de verdadeira religião, daqueles que trazem por morder os dentes, por atacar, facas brancas escondidas nas botas, dancei até o fim a al nahal na largueza das carnes e ele foi ficando bêbado daquilo, ele viajou no Egito, no Marrocos, em Alger, viu trance, baladi, Fatima, sword dance em Jericó, cerimônia zaar ou gargabus ou stambali, dança de bem estar que repete o sacrifício da jovem que seu sangue se transforma em flor vermelha que se dança girando sobre os pés paticatuuuuu tuuuuu tuuu tac tac o passo deve ser ágil como pisasse em brasas, tudo o que se faz de tradição é sagrado...

Baby it's you

Por Manoela Sawitzki, autora de 'Nuvens de magalhães'

– É mole, princesa. Tu sobe lá, bem na manha, bem sensual, e vai tirando.

– Não sei se entendi direito, eu...

– Mexerica.

– O quê?!

– Tu vai ser a Mulher Mexerica.

– Oi?!

– Vai descascando, tranqüila... Compreendeu? Só na sensualidade... Cleidson, arruma um proibidão maneiro pra princesa aqui.

– Não, eu... É que eu tinha pensado em... Eu trouxe uma música assim, mais tipo... Smith, conhece?

– Do MC Smith?

- Não! A banda americana… Baby it's you. É super sensual... Dos anos 70. O Tarantino até usou em...

O cafetão, se houvesse um, me olharia atônito antes de repetir anos 70 num tom debochado. Talvez cederia. Afinal, eu, uma universitária, naquele balaio infestado de Copacabana, querendo viver um dia de stripper. Talvez o primeiro de muitos. Talvez, se me tratasse direito, o início de empreendimento longo e lucrativo. Somente uma questão de me fazer emborcar três ou quatro doses de vodca nacional, lambuzar a boca de vermelho paixão, repetir palavras doces e irresistíveis para a moral feminina como princesa, deusa e gostosa-pá-caralho. Cara de santa estava em falta na praça desde 2003. Tem quem entregue a chave do carro em troca de uma legítima santinha como eu.

Queria pensar em algo mais Paris e menos Rio de Janeiro, num cafetão com feições de Alain Delon, não do verdureiro da esquina. Mas fracasso até na fantasia e preciso confessar: não tenho alma de stripper. Deve existir uma vocação que implica em gostar de lingeries minúsculas que pinicam, banhos de sol diários e mega hair. Ou talvez seja isso, apenas esta noite, eu sozinha na sacada de um apartamento de fundos, esvaziando mais uma taça de vinho, a música no repeat... Many, many, many nights go by… Luzes apagadas, olhos fechados, duas e meia da manhã, talvez algum vizinho insone, talvez só o Cristo me vendo deixar cair o vestido, ficar nua do lado de fora: aqui vai meu striptease para o suposto estranho na janela, para os morcegos de Copa, para ninguém, para mim: não para ele. Nunca mais para ele... Many, many, many nights go by, I sit alone at home and cry over you…

Stripper

Por Ivana Arruda Leite, autora de 'Falo de mulher'

Quando eu cheguei do trabalho e vi a Marly dançando pelada em frente ao espelho achei que ela tava bêbada.

– Tô ensaiando – ela me disse séria e sóbria. – Vou fazer teste pra stripper numa boate. Quer vir também?

No começo eu achei um absurdo. Imagina, dançar pelada pra um monte de homem. Jamais eu teria coragem.

– É um dinheiro no mole – ela disse. – De segunda a sexta, um show de meia hora por noite: um salário mínimo mais ticket. Muito mais fácil do que o trabalho no hospital.

É verdade. A gente ganha isso pra limpar merda e mijo de doente oito horas por dia. Um trabalho limpinho desse, deve ser uma maravilha. O problema é que a Marly tem um corpão. Quem vai querer ver uma gorda barriguda como eu dançando pelada?

– Deixa de ser boba. Tem tara pra tudo. Você só tem que providenciar o figurino. A fantasia é por sua conta.

– Com que roupa você vai fazer o teste? – eu quis saber.

– Com essa aqui – ela disse, mostrando o uniforme engomadinho.

– Sua louca! Se alguém descobre...

– Bico calado! Enfermeira faz o maior sucesso em show de stripper, não sabia, não?

Ela colocou o CD do Roberto e ensaiou o número pra mim. Fenomenal. A saia pregueada, a blusa, o sutiã (um sutiã lindo de rendinha), a cinta-liga, a meia-calça e a calcinha de strass, desse tamainho.

– Tá na cara que você vai ser contratada!

Hoje a Marly faz mais de dez shows por noite. Sai de uma boate e entra em outra. Largou o hospital faz tempo. Virou a estrela das boates do quarteirão. De vez em quando ela ainda insiste pra que eu faça o teste. Assim, num lugar público, eu não tenho coragem. Mas confesso que também peguei um uniforme na rouparia e todo dia, quando ela sai pra trabalhar, faço meu número na frente do espelho. Com sutiã de renda, calcinha de strass e tudo. Um arraso.


Publicado no Caderno Idéias & Livros em 28/12/08 - Jornal do Brasil

18/12/2008

Relicário



Iggy Pop + Goran Bregovic + Kusturica



16/12/2008

ETC.

Vivien Leigh em ... E o Vento Levou


Jamais sentirei fome novamente...

Faltam quinze dias pra 2008 acenar e sussurrar “adeus”. Sou o tipo de pessoa que cai fácil neste negócio de contagens. Fazer o que se sinto frio na barriga enquanto todos gritam “10, 9, 8, 7...”, esguichando sidra na orla de Copacabana?! No 1, os fogos explodem e eu tenho a sensação de que, de fato, alguma coisa importante está começando. E sensação é algo que, na melhor das hipóteses, não se controla. Então eu sinto resignadamente. E fico com aquela vontade louca de abraçar meus amores, de dizer com todas as letras que eles são os meus amores, e lamento a distância que me separa de cada um. Mando torpedos e faço telefonemas pra compensar o vazio que fica. Começo a bebericar lá pelas nove da noite, logo, me declaro com frases cafonas, falo de eternidades. E choro.

**

Há tempos abandonei a ritualidade vendida nos telejornais do meio-dia. Hoje desligo a tevê. Nada de calcinhas vermelhas ou amarelas, portanto. Tou nem aí pras sete ondinhas, mas faço questão de sentir a água do mar gelando meus pés no meio da madrugada do primeiro dia do ano. Sorte é poder estar ali, ter o mar tão perto. Sorte é sentir.

No passado, já carreguei saquinhos de lentilhas na bolsa, pra atrair prosperidade, minha mãe garantiu, e fui mal paga o ano inteiro. Já comi sete grãos de uva e fiquei desempregada. Já joguei presentes pra Iemanjá pedindo fartura amorosa e tive o coração partido antes de fevereiro. Como todo mundo, já beijei estranhos na noite de réveillon e vivi paixões-relâmpago que vieram e passaram como a ressaca do dia seguinte. Já fiquei na praia até dez da manhã e queimei os ombros. E prometi nunca mais cair nas armadilhas de sempre. E planejei mudanças. E me repeti em erros.

**

Todo ano, nessa mesma época, a duas semanas do fim, promovo balanços seríssimos. Uma espécie de conselho de classe interior se reúne e vota se devo passar de fase mesmo sem ter atingido a média em matemática (isso já me aconteceu no colégio, isso sempre me acontece). O conselho faz barulho. Algumas vozes alegam que alguém que não conseguiu seguir uma lógica simples por doze meses, que se entregou diante de uma equação mais difícil e sucumbiu por causa de uma breve interseção, deveria ir direto pro canto do pensamento e lá permanecer pelo menos até que acabe o período de férias. Peço a palavra e conto-lhes que também fiz e aprendi coisas insuspeitadas. Por exemplo: agora sou capaz de produzir meia dúzia de diferentes bolos integrais (sem receita!) e eles nunca solam. Que em 2008 me descobri mais jornalista. E dei aulas e escrevi uma peça e assinei contrato pra um livro novo e logo comecei outro. Que meu estilo tem mudado pra uma chave mais leve. Que fiz novos amigos e segui firme e forte com os grandes e antigos. Propus paz a alguns desafetos. Sofri, superei, esqueci. Olho no olho de cada um. Eles sacodem as cabeças negativamente, desconfiados. Num arroubo de Scarlett O’Hara, bato no peito e garanto que sobrevivi e que essa sobrevida me fez um pouco mais forte. Eles, em resposta, formam um círculo e cochicham entre si. Um deles me lança um sorrisinho cúmplice. De repente, no alto de dezembro, a esperança aparece. O círculo se desfaz, e em uníssono, o conselho permite que eu siga. Há vermelhos no boletim, é verdade. Mas em 2009 serei muito mais esforçada. Prometo.


21/11/2008

Escada

H. Callahan


"Dentre as coisas mais importantes que urdem dentro de nós estão os encontros adiados – trate-se de lugares ou de pessoas, de quadros ou de livros. Existem cidades pelas quais anseio tanto, que é como se estivesse, desde o início, predestinado a passar nelas toda uma vida. Usando uma centena de subterfúgios, evito ir até elas, e cada nova oportunidade de uma visita que se me apresenta intensifica em mim de tal maneira a sua importância, que se poderia pensar que só por elas ainda estou neste mundo, que, se não fosse por elas sempre a me esperar, eu teria já de há muito perecido. Existem pessoas sobre as quais gosto que me falem, tanto e com tanta avidez que se poderia pensar que, afinal, sei mais delas que elas próprias. Contudo, evito ver-lhes um retrato, esquivo-me de qualquer imagem visual, como se pesasse uma pesada e justa interdição sobre o conhecer-lhes o rosto.
Há, também, pessoas que durante anos encontro ao passar por um mesmo caminho, sobre as quais reflito – pessoas que se me apresentam como enigmas que me são dados a desvendar – e às quais não dirijo palavra: passo mudo por elas, como elas por mim; olhamo-nos com um ar inquiridor, mantendo os lábios solidamente selados. Fico imaginando uma primeira conversa e excita-me a idéia de todas as coisas inesperadas que ela reserva para mim.
Por fim, existem pessoas que amo há anos, sem que elas possam suspeitar disso. Envelheço, torno-me cada vez mais velho, e deve certamente parecer uma ilusão absurda a idéia de que algum dia eu venha falar-lhes de meu amor, ainda que, na imaginação, viva continuamente da expectativa desse momento divino. Sem esses meticulosos preparativos para o futuro, eu não poderia existir: eles são para mim, se perscruto a mim mesmo com rigor, não menos importantes do que as surpresas repentinas que surgem como que do nada e nos subjugam de imediato."


Elias Canetti, O Jogo dos Olhos (História de uma vida/ 1931-1937)

16/11/2008

Escada

Jacob Riis



"A polêmica verdadeira apodera-se de um livro tão amorosamente quanto um canibal que prepara para si uma criancinha."
Walter Benjamin


09/11/2008

Escada

Lee Friedlander


“Como termina um amor? – O quê? termina? Em suma, ninguém – exceto os outros – jamais sabe disso; uma espécie de inocência mascara o fim dessa coisa concebida, afirmada, vivida como se fosse eterna. O que quer que se torne objeto amado, quer ele desapareça ou passe à região da amizade, de qualquer maneira, eu não vejo nem mesmo se dissipar: o amor que termina se afasta para um outro mundo como uma nave espacial que deixa de piscar. O ser amado ressoava como um clamor, de repente ei-lo sem brilho (o outro nunca desaparece quando e como se esperava). Esse fenômeno resulta de uma imposição do discurso amoroso: eu mesmo (sujeito enamorado) não posso construir até o fim a minha história de amor: sou o poeta (o recitante apenas do começo); o final dessa história, assim como minha própria morte, pertence aos outros; eles que escrevam o romance.”


Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso


03/11/2008

Imprópria para menores...


Fugiu um Condenado à Morte, Robert Bresson

Chico Buarque - Apesar de Você


Pois então, não sei se fico lisonjeada, aborrecida ou acho graça...

Ia deixar o recado apenas nos comentários da outra postagem, mas de repente achei que a coisa merecia (por não merecer) vir pra ala das baianas.

Agora, pra entrar aqui vc será avisado que “Alguns leitores deste blog entraram em contato com o Google porque acreditam que o conteúdo do blog é questionável.”

Ou seja, tem alguém esbarrando no botão de conteúdo impróprio do blogger quando entra no Prelúdios e não consigo entender o motivo.
Que tipo de gente faria isso?

Foram os nus do Horvat, os beijos do Doisneau? Será que acha tão ruim o que escrevo e as referências que menciono que, por isso, acredita que deve me impedir de publicar? Ou teria sido uma grande enxaqueca que deixou esse alguém de mal com a vizinhança?

Seja quem for, lembro que há muito site de pornografia infantil e atrocidades de muitas ordens pra se caçar por aí... Seria uma maneira mais correta e útil de exercer seu ímpeto de censor.

Esse blog fala sobretudo de amor (que é a coisa mais importante desse mundo e tem mais formas e repercussões do que sonha nossa vã filosofia) e suas cercanias, cierto?



29/10/2008

Caixa


Au hasard Balthazar, de Robert Bresson



(pra ler/ouvir)

"Tudo em ti era uma ausência que se demorava:
Uma despedida pronta a cumprir-se."

Cecília Meireles



Na última vez que nos vimos, havia um corredor vazio e vozes atravessando as paredes vizinhas. Havia um elevador que nunca chegava ao destino. Um homem e uma mulher, dois meninos que éramos você e eu na manhã quase fria, depois de um muito beber e de um dormir bem pouco e juntos pela primeira vez em meses, pela primeira vez em meses e a última.

Em algumas horas o avião decolaria e horas antes, no confuso de um bar, enquanto você ancorava sempre longe e se esquivava sob o pretexto de... nada que justificasse e tudo ao mesmo tempo tão justo no encaixe, nenhuma sobra, nada diferente do que já tinha sido – objeto desejado flanante e inapreensível fluindo com o ar e os muitos copos. E eu, ali, soube.

Em algumas horas o avião decolaria e era o adeus agora. E os olhos ficaram úmidos não se sabe se de alívio ou pena ou medo do escuro que vem quando se nubla as barganhas da memória. Eu soube ali que te esqueceria.

E foi assim que te beijei e te vi dormir e desenhei com os dedos teu rosto já muito querido e não me feri na lâmina da última noite contigo. E foi assim que soube do instante exato desse marco.

No filme, o moço vence o tráfego, corre pela escada e impede o embarque. Aqui, é a despedida.

O avião ganhou o espaço e cada quando, perto e longe, me veio como vaga imagem do sonho que sonhei demasiado. Nenhuma revolta no tal vôo. Nem trepidação ou choque ou queda. Os olhos chuviscaram em silêncio. A água riscou a pele e acordou trecho por trecho pro frescor de uma vida sem te querer de novo.

Da cabine, a voz que soou próxima e amiga. Estamos prontos para o pouso.
Depois de longa viagem. Estava voltando para casa.


Rio, 28 de outubro de 2008.

28/10/2008

Caixa

Não posso me queixar da vida...

Leitura (e a posteriores) de minha peça Em nenhum outro lugar, dia 20 de outubro, em São Paulo.
A história começa no Masp e acaba na Mercearia.

Deixo cá meus chamegos pros queridos Andrea del Fuego, Marcelino Freire, Cynthia Falabella, Débora Falabella e Rogério Falabella, Michele Gonçalves. E mais alguns cheiros pra Clóvis, Marina, Camila, o povo bravo do Letras, e os bons amigos que estiveram lá com cabeça, tronco, membros e/ou coração.




Del fuego chama...

Marcelino, o ator



Eita sotaque bom: Rogério e Cynthia Falabella e Michele Gonçalves


Debatemo-nos


Depois de fechar a Mercearia tudo pode parecer complexo...



E a festa não tem hora pra acabar...



O retratista Leo Caobelli e Paulo, fiel escudeiro


"Manu,

Sobre Em nenhum outro lugar, a leitura da última segunda-feira, no Masp, principiou pelo núcleo familiar sugerido, mas depois conduziu-me a outros mares. Transcendeu para a humanidade daqueles personagens reunidos na casa natal, independente dos laços de sangue. Zereu, suas filhas e a viúva (mais que presente!) nos fazem universais naquilo em que somos únicos responsáveis: fazer da vida aquilo que quisermos dela, por mais que não seja um processo consciente. O suspense crescendo e o surpreendente desfecho pelo patriarca, subvertendo inclusive a imagem deste nas narrativas convencionais, nos cutucam em vários recônditos da alma. Não sei se este espectador/ouvidor estava à flor-da-pele, mas saí mobilizado por essa capacidade transformadora de Zereu. Ele não é passadista, não fica no chove do meus melhores dias contra o nosso presente de angústias existenciais. Não, eles esmerilha com sua capacidade de apaixonar-se, de reconhecer os sentimentos e desejos sem chantagear a si mesmo. Sentimentos e desejos, foram esses os vetores que me levaram pelas mãos na história desse homem e das suas mulheres, ou vice-versa, dessas mulheres e desse homem, sem que estejam claramente definidos a platéia e o palco, estanques. Na medida que as filhas “progressista” e “reacionária” são desconstruídas em suas formas de driblar sentimentos e desejos, a peça contrapõe o percurso do pai e da mãe. Pai e mãe que não deixaram de ser homem e mulher, seres humanos livres na forma de relacionar-se com sentimentos e desejos, eles, mais uma vez. São diálogos e idéias que permitem amplas leituras, como ouvimos nos comentários dos atores e da platéia. Bom, essas as breves impressões de um primeiro contato com sua aventura pela escrita teatral que nos convida à emoção e à reflexão com muita elegância e dor.

Um grande beijo e boa jornada!

Valmir*, outubro 2008."

* O Valmir Santos é jornalista e crítico, seu reino é a cobertura de teatro.

17/10/2008

Recado

Respeitável público! (e os nem tão respeitáveis também, claro)

Dia 20 de outubro, próxima segunda-feira, às 19h30, serei a anfitriã do Letras em Cena, no Grande Auditório do MASP (Av. Paulista, 1578).

Pra começar, os queridos escritores Andrea del Fuego e Marcelino Freire vão ler alguns textos. Conheço Andrea há quatro anos, e só na virtualidade. Trocamos emails e livros. E já gosto dela como se fosse vizinha de porta. Muitos cafés e cachaças planejados e nunca cumpridos. Agora é hora de consumar o ato! Do Marcelino tinha medo. Um pouco. Achava com cara de sujeito brabo. Mas cinco segundos depois de falar com ele, há algumas semanas, na noite de lançamento do Rasif aqui no Rio, já estava encantada.
E não é que eu seja assim tão fácil, é que eles são uns queridos mesmo.

Bom, em seguida, Cynthia Falabella, Débora Falabella e Rogério Falabella, pai e filhas, estarão juntos no palco para a leitura dramática de Em nenhum outro lugar, minha nova peça – escrita especialmente pros três mineiros.

Esse texto, dedico ao Domingos Oliveira, porque me mostrou que tudo pode ser mais simples, muito mais, desde que tenha coração.

Depois das leituras faremos um debate.

É minha terceira peça lida no Letras. Antes teve Três Vias e Calamidade. A quarta lida em São Paulo. Dois Pajens abriu a programação do projeto Dramaturgias do CCBB no ano passado. Foi lá que ganhei de presente essa moça dulcíssima, Cynthia Falabella.


Por que tudo em São Paulo? Não sei a resposta, só conheço a pergunta... E muito me pergunto...

Letras em Cena

14/10/2008

ETC.

Zbigniew Ziembinski com Anselmo Duarte no filme Madona de Cedro


Em outubro, nas melhores casas do ramo:

Assim como eu não sabia que o encarregado do calafeto (isso mesmo, o encarregado do calafeto) chama sepultura de carneiro, muita gente não sabe quem foi Ziembinski.

Revista Bravo!

A reestréia do túmulo 21.091


Como informou outro dia uma moça, durante um debate no Festival do Rio, para grande surpresa e deleite de todos, “o mundo está em movimento”. Há seis anos fui personagem de matéria parecida na mesma revista. Agora foi minha vez de perguntar.

Revista Aplauso 95

A não-geração do século 21

03/10/2008

Caixa

Marc Riboud


Walk of shame

O dia começava na primeira farmácia do quarteirão. Isso porque a noite tinha acabado em sexo. Não, a noite tinha acabado em dois bêbados procurando uma camisinha entre lençóis amarrotados. Não, a noite tinha acabado com Valdir fazendo-lhe um embaraçoso exame em busca do invólucro perdido. E agora ela andava por Copacabana sobre os saltos, como um equilibrista sobre o arame.

Walk of shame. O quê? Walk of shame, repetiu, cúmplice, Astrid, a alemã oracular que Valdir hospedava, ao vê-la esgueirar-se porta afora, usando sapatos de festa nada compatíveis com o sol que raiava nos trópicos.

Walk of shame... No espelho do elevador percebeu que seu rímel não era mesmo à prova d’água. No mesmo elevador, assim que ali adentrou um par de corpos torneados e semi-nus, portadores de bolsas de praia e chinelos de dedo, percebeu que estava tudo errado em sua vida. Sentiu-se um panda de escarpin e vestido negro quando saiu do edifício. Um zumbi, um morcego, um corvo, uma galinha preta.

Era uma mulher que rolara na cama com aquele caso antigo e mil vezes renegado que entrava na Pacheco de óculos escuros pra comprar a pílula do dia seguinte. Toc toc toc. A avenida barulhenta e congestionada, os trabalhadores em marcha, os primeiros ambulantes a oferecer calcinhas e manicures por dois reais, britadeiras, buzinas, sirenes, alarmes, nada parecia capaz de aplacar o trote de seus saltos noturnos sobre a calçada.

Pediu água sem gás na banca em frente e encerrou o assunto. Sempre foi contra abortos, mas sempre seria ainda menos favorável a Valdir. Preferia a consciência maculada, a culpa conseqüente e uma saraivada de hormônios fuzilando seu útero a mais remota suspeita de que geraria descendentes do Valdir. A propósito, não jurou que nunca mais daria pro Valdir? Jurei. Jurei e continuo jurando, mas mulher carente e humilhada é o tipo mais desonesto que existe, Paula. Paula conhecia todas as pílulas, clínicas, pais-de-santo, astrólogos, cartomantes, xamãs e centro-espíritas que uma moça em desespero precisava no meio de uma crise. Quanto ao preservativo, o corpo expele naturalmente. Agora vê se vai pra casa, toma um banho e pára um pouco com essa loucura. Paula era a única amiga pra quem podia confessar que transportava um pedaço de látex e um exército de espermatozóides do Valdir enquanto andava sobre a vergonha, às nove da manhã, em plena Nossa Senhora de Copacabana.

Meia hora antes, assim que abriu os olhos e detectou o corpo esguio enroscado no seu feito uma píton, reagiu como se ele fosse a própria. Desvencilhou-se com cuidado, pra não lhe interromper a fruição do ronco e partiu, jurando que... Teve um caso com aquele homem fazia mais de dois anos. Um caso que acabou porque o sexo... Como explicar? O sexo com Valdir, mais que ruim, podia ser embaraçoso. Valdir, além de inábil, era esforçado. Insuportavelmente esforçado. Desastrosamente esforçado. Dado que ela, gentilmente, omitiu quando lhe disse que estava noutra sintonia, precisando focar mais na profissão. Valdir mostrou-se compreensivo e tratou de investir a longo prazo.

Vez ou outra, o acaso os reunia na mesma mesa em algum boteco do Baixo Gávea, e lá conversavam sobre cinema – a especialidade do Valdir. Bebiam, discutiam e exaltavam Polanski, Wajda, Tarkovski, Allen, Von Trier, Domingos Oliveira, e tacavam fogo na Globo Filmes. À medida que conversava sobre cinema, e pedia outro chope, e uma caipivodka pra peteca não cair tão cedo, ia gostando mais do interlocutor, e ficava desmemoriada de suas incongruências. Talvez não fosse o aparato cinéfilo o que a atraíra tantas vezes pro mesmo anzol. Talvez fosse a inesgotável capacidade que tinha de lisonjeá-la, exaltar os talentos e ignorar os defeitos dela. Valdir podia ser um exímio adulador. Jamais vulgar ou repetitivo. Pelo contrário: cada vez que se encontravam, tinha novíssimas considerações sobre a maciez da sua cútis, os contornos de sua boca e o brilhantismo de suas idéias. Tratava-se do velho efeito cascata, provocado pelo inevitável derrame de um coração partido. O Baixo Gávea era seu Prontocor. Se estivesse lá depois da meia-noite, não precisavam perguntar: tentava esquecer alguém. Pra esquecer alguém, como primeiro procedimento de emergência, tentava esquecer-se de si mesma - ou do abandonável em si mesma. Um porre cavalar lhe daria melhores motivos pra sofrer no dia seguinte. E, entre um porre e uma ressaca, Valdir entrava.

Mais que um amante eventual, Valdir havia se tornado um catalisador de culpas. Culpa por ceder aos apelos de uma esfarrapada auto-estima, culpa por sua dificuldade patológica de dispensar um sujeito gentil, culpa pelo sexo insipiente, pela reincidência hedionda, pelo gato que deixou sem ração, e, sobretudo, culpa por amar um homem que, noite passada, embarcava pra Buenos Aires sem ela e, àquela altura do dia, enquanto ela torcia o pé no vão de um bueiro da Dias da Rocha, devia andar pela Calle Florida de mãos dadas com seu mais recente grande amor.



Rio, 03 de outubro de 2008.

02/10/2008

Hoje




Surabaya Johnny, por Lotte Lenya

01/10/2008

Pertence

Marc Riboud


Onde foi parar o meu impulso?

Confesso: entrei na faculdade de jornalismo pensando em ser correspondente de guerra.
Pra entender meus motivos, basta olhar em retrospecto: com treze anos sonhava que me tornaria um híbrido de Mulher Maravilha, Rui Barbosa e Che Guevara e sairia mundo afora combatendo mal-feitores. Cheguei a acreditar que o Direito fosse o caminho natural, mas logo percebi que a lentidão e as falhas do sistema não combinavam com minha ânsia por justiça.

Antes, fui efetivamente uma espécie de ativista ecológica perigosíssima! Lá pelos dez, bombardeava a secretária do Prefeito (embora o alvo fosse o próprio) com cartas e telefonemas, decidida a livrar o Rio Itaquarinchim dos esgotos de Santo Ângelo.

Na mesma época, soube pela televisão que a Floresta Amazônica estava condenada a desaparecer em cinco décadas. Chorei uma noite inteira. Hora de redirecionar o foco. Certa de que a obra do tubão, que desviaria os esgotos do Ita, era fruto dos meus esforços, tratei de promover um abaixo-assinado na escola exigindo que se acabasse com o desmatamento da floresta e o enviei ao Exmo. Sr. Presidente da República.

Meses depois, chegou o telegrama do Ministério da Agricultura garantindo que “o documento seria encaminhado para o setor responsável”. Missão cumprida! Que orgulho!

Meu pai, igualmente orgulhoso, me deu de presente uma pasta pra guardar (com a devida solenidade) toda a vasta correspondência oficial que tinha acumulado no período de luta. Bom, pelas últimas notícias que recebi sobre a Amazônia, creio que a tal carta nunca chegou ao setor responsável. E a pasta? Não faço idéia de onde esteja, nem se ainda existe...

O fato é que, hoje, outras coisas fundamentais andam perdidas. O impulso de agir, por exemplo. Não a capacidade de me indignar e sofrer, mas o impulso de transmutar indignação e sofrimento em atos comprometidos. Tento lembrar onde deixei esse impulso. Talvez naqueles primeiros anos de Porto Alegre, sob as contas de luz, aluguel, docs da faculdade, soterrado pelas más notícias dos extratos bancários, oculto pela preocupação com o desemprego. Ou caiu enquanto me dedicava a percorrer a rota ao redor do meu umbigo ou guardei tão bem que acabei esquecendo o lugar do esconderijo.

Porque é isso que faz a maioria de nós: toca a vida, digo, trata de, se nada der muito errado, sobreviver e cuidar da própria pele, família, casa, bolsa... Desviamos dos obstáculos, sejam eles lixo na areia da praia, uma criança dormindo na calçada, e seguimos. Falamos mal dos políticos, do vizinho, dos bandidos, da polícia e nos recolhemos à insignificância que preferimos a ter de nos dar ao trabalho de agir. Sobra-nos informação, medo, revolta, discurso, mas nos falta o impulso. Quanto a mim, posso garantir: não descanso até reencontrar o meu, até voltar a sentir o orgulho que também perdi quando parei de querer salvar o mundo.

Se você, por acaso, vê-lo por aí em algum canto, por favor, me avise. E não se acanhe: pegue um pouco pra si, cuide que cresça e tire dele o melhor proveito.


Texto publicado no Caderno Donna, Zero Hora, em fevereiro de 2007.

28/09/2008

Hoje



Todas as Mulheres do Mundo
(1966), Domingos Oliveira


Quero ser Domingos Oliveira

Hoje é aniversário do Domingos Oliveira. À meia-noite ele dançava, cantava e soprava velinhas feito um moleque adorável no palco do Tablado.
Pouco antes de fazer 72, com gravata borboleta dourada e plumagem alaranjada ao redor do pescoço, dizia que o negócio era decidir peremptoriamente de que lado se estava: da vida ou da morte. E que se a realidade é coisa aborrecidíssima, a fantasia é território infinito. E que nunca devemos resistir a um sorvete desejado, nem amar menos do que é possível. E que se conquista um amor amando-o, e é mais fácil amar do que esquecer. Mas se esquece. Amando outra vez...

Domingos canta, dança, ri e fala (às vezes quase inaudível - e a gente sempre entende o que diz), entre dourados e plumas, e todos sabem de que lado é (peremptoriamente) melhor estar...

20/09/2008

Hoje




Amarcord (1973), Federico Fellini

18/09/2008

Escada

Don Mccullin


“Pedimos somente um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada é mais doloroso, mais angustiante do que um pensamento que escapa a si mesmo, idéias que fogem, que desaparecem apenas esboçadas, já corroídas pelo esquecimento ou precipitadas em outras, que também não dominamos. São variabilidade infinitas cuja desaparição e aparição coincidem. São velocidades infinitas, que se confundem com a imobilidade do nada incolor e silencioso que percorrem, sem natureza nem pensamento. É o instante que não sabemos se é longo demais ou curto demais para o tempo. Recebemos chicotadas que latem como artérias. Perdemos sem cessar nossas idéias. É por isso que queremos tanto agarrarmo-nos a opiniões prontas. Pedimos somente que nossas idéias se encadeiem segundo um mínimo de regras constantes, e a associação de idéias jamais teve outro sentido: fornecer-nos regras protetoras, semelhança, contigüidade, causalidade, que nos permitem colocar um pouco de ordem nas idéias, passar de uma a outra segundo uma ordem do espaço e do tempo, impedindo nossa “fantasia” (o delírio, a loucura) de percorrer o universo no instante, para engendrar nele cavalos alados e dragões de fogo. (...) Mas a arte, a ciência, a filosofia exigem mais: traçam planos sobre o caos. (...) A arte, a ciência, a filosofia querem que rasguemos o firmamento e que mergulhemos no caos. Só o venceremos a esse preço.”

Gilles Deleuze e Félix Guattari, O que é a filosofia


16/09/2008

Hoje

I'm dancin' and singin' in the rain...




Singin' in the rain (1952), Gene Kelly e Stanley Donen

10/09/2008

ETC.




" Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(É nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei..."
Quintana



Voltar... Doze anos que voltam num golpe assim que o avião aterrissa.
Voltar pra Porto Alegre é encontrar duas moças lindas que te esperam e te sorriem desde o portão de desembarque. É abraçá-las em abraços históricos. Ter irmã e sobrinho pra te receber numa casa com jeito de casa materna. É descobrir que esse sobrinho já fala em relacionamento e padece por amor. E que tuas sandálias não combinam com o frio lá fora. Que tua mala tropicalizou. E você também. Quem diria?!

Voltar pra Porto Alegre em setembro é saber que o resto do ano nunca é assim tão intenso, mas fingir esquecer... É ter três almoços, quatro cafés, dois jantares, três peças, um cineminha, muitos encontros possíveis e vários bolos prováveis todos os dias. Passar por tantos lugares e caras familiares e sentir que aquilo tudo te pertence de um jeito ou de outro.
Voltar pra Porto Alegre é cruzar a João Pessoa e reconhecer a nostálgica janela do primeiro endereço na cidade. É ir até ao último pra apanhar a correspondência perdida, e conhecer a portaria que reformaram só depois da tua mudança. É memória sem trégua... É estar de passagem...

Ser chamada de guria , encarangar de frio no sábado à noite, olhar pro céu e perceber que é bem capaz de cair um toró . É ter uma ave verde que te chama de vovó, e se deixa ficar sobre teu peito debaixo do cobertor, pedindo cafuné. É lembrar da amiga barceloneta na Torre de Pizza e espanar a poeira de alguns afetos que estavam alto demais na estante. É ler “Promoção de cacetinhos” na fachada da padaria e ir comprar extrato de tomate no “Mercado Quebra Galho”. É ter polenta frita em quase todos os cardápios. Pedir Polar. Ser atendida pelo Adão (o melhor garçom do planeta). Ver uma senhora ruiva usando polainas vermelhas, e uma profusão impossível de crianças loiras com olhares indecentemente azuis.

Voltar pra Porto Alegre é saber que vai chorar bocadinho na sala de embarque pelos amores que ficam. É como folhear um álbum que você completou, pra então começar tudo de novo, em outra parte...


Porto Alegre, setembro de 2008.



(Bela resposta de minha bela compañera, lá no www.amitampoco.blogspot.com)



30/08/2008

Caixa II

Doisneau


"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo."
Drummond


Cicatrizou logo você pensa. Cicatrizou, lembra-lhe a nódoa ainda aparente. Pequena nódoa no lugar do rasgo antigo. Vulcões adormecem e a lava esfria numa ilharga longe dos satélites onde bestas e náufragos aquiescem em profundezas líquidas. E um dia você acorda sem poder amar nada mais daquilo. Estreita-se junto a seu corpo ou a outro corpo e sorve nele um conforto quase esquecido. Enfim desperto contempla a cama. Nunca mais a mesma cama antes dela. Qualquer cama qualquer corpo: dela. Nunca mais. Esta nova cama pouco a pouco você a conquista alargando-se como mar que rompe as docas.
No entanto também pensa... No entanto, a cicatriz. Memória inscrita num corpo. Num que ama. Cada um que ama.

A memória inunda-lhe em ofertas que você recusa. Imagens esmaecidas águas turvas. E a dor executa prelúdio intenso ao final do ato resquício agudo. Aquele seu rosto balbuciando lamúrias a uma Medusa que não o encara nome gritado na esquina beijo roubado sem gosto manhã rompida sem brilho. E aquelas mentiras que lhe disseram aos pés do cadafalso. E aqueles sorrisos que lançaram ao decapitado. Amontoados e fartos lixos você pensa fechando os olhos tateando cada marca como se lesse uma história em braile.
Reconhece a textura. E cada nódoa lhe dói ainda como ferida que se abriu.

Que seja. Algum vinho ou muito é do que precisa. Mas é quase de manhã e o dia rebenta pedindo água limpa.
Um cigarro você procura... E a fumaça sobe anunciando futura erupção...


Porto Alegre, agosto de 2008.


19/08/2008

Caixa I

Doisneau, Créatures de Rêles


"Eu sou à esquerda de quem entra."
Clarice Lispector

Até que um dia... Um dia você acorda e... Um dia você acorda. Querendo dizer menos muito menos: você acorda. O dia de acordar chega sem aviso nenhum alarme algum espanto. Ontem nem sinal de que... Ontem se alguém lhe falasse garantido você pensaria que se não lhe compreendem que não lhe compreendam mudos e procuraria um nicho escuro onde ser incompreensível sem que alguém lhe queira medir ajustar.

Um dia você acorda em sua cama ou em outra cama e nota a ausência do buraco. E aquela pessoa, aquela pessoa antes como que ranhura permanente em sua pele, cicatriz incorrigível em sua pele é só outra cicatriz agora. Entre muitas marcas de um corpo. O esforço da pele em ceder e repuxar-se de modo a cobrir o vão o estrago é então mais presente que o corte que a feriu. E se lembra ainda, se lembra, a mão que desfere o golpe lhe aparece hesitante em sua violência. O crime duvidoso em seu dolo. E aquela pessoa, Deus, aquela pessoa que você amou disse amar a última a lhe ensinar um amor volátil e abrupto abandono... Aquela pessoa que você amou? Repentino algo lhe revela nada disso. Talvez só amor de menos por tudo de amorável em você o amor por ela. Talvez a pessoa em você surda e sem abrigo indo esconder-se num nicho à sua sombra. De bom uns sorrisos tão vagos que nada mais lhe garante que seriam ainda hoje. E aquela pessoa que amou talvez de menor amor por si e grande desejo de amar alguma coisa talvez diga e ouça em sua cama ou em outra cama o mesmo que disseram os dois, esse dois que era você e ela, e talvez acreditaram por breves demorados instantes...

Um dia claro que você acorda e nota sem pesar nem alívio que isso apenas isso foi o amor que cicatrizou.


Rio, agosto de 2008.


Relicário

... em algum lugar, antes da Lei Seca...

14/08/2008

Relicário


"Lembrar é fácil para quem tem memória.
Esquecer é difícil para quem tem coração..."
W. Shakespeare


Dia desses recebi pelo correio o material de Calamidade - primeira montagem da primeira peça que escrevi. Da noite de estréia, lembro não ser capaz de sentar numa poltrona normal, como uma espectadora normal ou uma pessoa (aparentemente) razoável... Procurei o canto mais reles, um degrau qualquer onde não pudesse ser vista e quase não pudesse ver... Lembro de um rosto corado num espelho de banheiro de onde não queria sair, como nas festinhas meninas de um lado-meninos do outro dos meus dez anos.

Claro que era só mais uma peça entre milhares de outras estreadas naquela mesma noite de maio... Mais uma que nasceria e morreria no intervalo de hora e meia... Mas as coisas, quando nossas, não respeitam suas dimensões... E você pensa que, porque é consigo, as leis da física vão falhar e a cortina enguiçar e as atrizes ter brancos e a água, claro, ou não vai cair ou vai inundar palco e platéia, e, sobretudo, você pensa que é inverno e todos ali poderiam estar em algum restaurante com lareira tomando um bom vinho ao invés de sentados num teatro frio descobrindo que você não sabe escrever pra teatro...

Mas tudo bem, prometo que não escrevo mais...

Que mentira...

Então, lendo o material que Claudinha mandou, vendo o tanto que veio desde aquela noite de inverno, lembro de ter voltado outras noites e assistido o espetáculo da poltrona. Lembro de sempre sentir medo... De sentir orgulho... De ficar ressentida... E grata... Lembro do quanto o tempo buliu com tudo... Lembro de agradecer... De lembrar... Sempre... Lembrar sempre só do que vale a pena...



Calamidade

Direção de Cláudia de Bem
Com Liane Venturella e Sandra Dani

O espetáculo estreou em maio de 2006 no Teatro Renascença, Porto Alegre. Selecionado para o 13° Festival Internacional Porto Alegre em Cena em setembro de 2006. Participou do Caxias Em Cena. Selecionado para o Palco Giratório Sesc – RS 2007 e Projeto Lâmpada Mágica em 2008.

Calamidade recebeu 12 indicações e conquistou cinco dos principais prêmios do estado do Rio Grande do Sul e dois Prêmios nacionais.
- Prêmio Funarte de Dramaturgia 2004.
- Prêmio Myriam Muniz 2006
- Prêmio Braskem 2006 de Melhor atriz.
- Prêmio Quero –Quero / SATED-RS Melhor iluminação.
- Três Troféus Açorianos 2006: Melhor dramaturgia, para Manoela Sawitzki e Melhor atriz, para Liane Venturella e Sandra Dani.


“Texto denso, pungente, doloroso, que retrata as relações entre uma mãe centralizadora, cheia de beleza, sonhos e rancor para com um mundo moralista e opressor, e uma filha, digamos, medíocre, que por nunca ter pertencido ao universo fantasioso da mãe, tornou-se carente e cruel.(...) Manoela domina com facilidade a narrativa dramática – deve ser de família, já que o irmão, Biño, hoje estudando na França, é um dos mais destacados encenadores da nova geração. Seus personagens são suficientemente densos para terem vida própria e sustentarem a representação de idéias e temas que povoam a história de nossas vidas. E sua linguagem é definitivamente devastadora. (...) A capacidade de contar, de fazer jorrar palavras que contêm imagens que, por sua vez, sugerem idéias, é simplesmente avassaladora na literatura de Manoela. Pega a gente de surpresa, afoga, afaga, alisa, atrita, envolve como num ato de amor ao mesmo tempo que repele como um osso trancado na garganta. Com certeza há quem goste e quem não goste. Mas é impossível ficar indiferente, impossível não querer chegar ao fim, saber o que aquela gente quer e como solucionam seus impasses e mistérios. O que é, provavelmente, a maior qualidade de um escritor. E a maior dificuldade para um diretor.”
Luiz Paulo Vasconcelos
Diretor e ator

“ O espetáculo “Calamidade” foi uma grata surpresa. Um trabalho extremamente bem realizado, partindo de um texto instigante e arregimentando recursos cênicos (cenografia, música e iluminação) orquestrados com mão inspirada por Cláudia de Bem...”
Luiz Arthur Nunes
Diretor de teatro

“Um encontro necessário, teatralmente belo e rico! Podemos dizer que CALAMIDADE é um Fim de Partida sem Beckett, essencialmente feminino e familiar!”
Nelson Diniz
Ator e diretor

“Um espetáculo que se assiste tanto com prazer quanto com tensão, um bom exemplo do excelente casamento entre dramaturgo e diretor. A encenação de Cláudia de Bem é extremamente precisa e o resultado final de Calamidade é absolutamente satisfatório. Quando a peça termina, a gente respira, aliviado. O peso sobre o coração diminui (mas não desaparece) e a alegria pela obra bem sucedida se sucede. É espetáculo para se ver, obrigatoriamente. A se comentar e discutir. Uma boa, uma excelente estréia.”
Antônio Hohlfeldt
Crítico teatral


Temporada 2006 - Teatro Renascença, Porto Alegre.
Fotos: Luciana Menna Barreto



Christa: E será que você agüenta? Hein, mãe? Quer ouvir do meu jeito? Então está combinado. Se não agüentar, é só pedir pra parar... É só dizer assim: “Christa eu não agüento ouvir a verdade”, e eu me calo.

Leonora: A verdade nunca me assustou, meu bem, não se preocupe...


08/08/2008

Escada

01/08/2008

Relicário pra hora do recreio

- Crucifixion?

- Yes.

- Good…

(Life of Brian, 1979)




Knights Who Say Ni...

(Monty Python and the Holy Grail, 1975)


27/07/2008

Relicário


Zelig c'est moi...



Zelig (1983), Woody Allen

25/07/2008

Relicário

The dead class, Tadeusz Kantor (1915-1990)

"A fotografia é um momento trágico petrificado."
Kantor


22/07/2008

Caixa


Frank Horvat


“Eu gostaria muito de ter o direito, eu também,
de ser simples e muito fraca.”

Simone de Beauvoir


Sei ou Sempre dependi da bondade de estranhos


... mas a verdade é que sei pra onde estou indo. Sei. A incerteza, nestes casos, é só a desculpa necessária pra continuar correndo o risco. Porque pode ser, você sabe, pode ser que agora a história seja outra. Semelhanças nem sempre são o que parecem... E as aparências... O que estou dizendo?! Tentando justificar. Sei. Tentando justificar aquilo que faço comigo... Sempre faço comigo. Nenhum outro, nenhuma outra: eu. E por quê? Porque faço: vou lá e faço. Sempre assim: caminho até a beira e... Veja! Com uma perna só agora!!... Vôo livre... Livre?!... Quem dera... Caio emaranhada pelos fios do pára-quedas que não abre. A queda que não pára. Renova-se. Hoje uma, amanhã outra. Mas gosto de acreditar nessa minha coragem. De pensar que não me poupo. Desperdício é ver a vida passar e não tirar a maior fatia. Sei. Que. Vou. Sofrer. Sei. Simplesmente sei.

O Louco fechando o jogo. Se joga, moça! Pensa depois, ela disse, Não o que quer, outro. Moreno o tal outro. O caminho está livre, ela disse. E a Zuza garantiu que nunca erra, que fica besta, que traz mesmo o sujeito em três dias, não é conversa, lhe trouxe o Flávio... Sei... Trazer o Flávio... Antes um feitiço que a livrasse dele... A Zuza. A Zuza, como eu. Como todas? Todas no fundo acreditando que pode ser que agora a história seja outra. Todas se lançando no mesmo fundo. Emaranhadas.

E este agora. Num elevador. Ombros largos, bons sapatos, mãos bonitas. Sem aliança. Não do meu tipo, mas... moreno. Indiscutivelmente moreno. Me encarando enquanto o outro ligava. Loiro e casado. Sempre os casados... Só que agora pode ser que a história seja outra. Afinal, no elevador, na saída da cartomante, um moreno que me encara. E depois no café em que ia encontrar o loiro. Moreno o tal outro, ela disse. O mesmo moreno.
Adiós, rubios! Bienvenidos, morochos!
Tão cansada… Outro café. Outro. Como todos os outros. Loiros, morenos, ruivos, negros, amarelos, pardos... Todas essas cores que me borram... Tentando justificar o que faço comigo... O que estou dizendo?! Se joga, moça, ela disse... Gosto de acreditar nessa minha coragem... Correndo o risco de me perder de novo... mas a verdade é que sei pra onde estou indo. Sei?

Rio, julho de 2008


continua...

Relicário

Coffee and Cigarettes (2003), Jim Jarmusch


16/07/2008

Escada

Doisneau



"Será que não estamos significando alguma coisa?!"

Samuel Beckett, Fim de Partida




30/06/2008

Caixa

Anaïs Nin aos 17


“Que este amor só me veja de partida.”
Hilda Hilst

Auto-retrato I


De seda eslava,
Expatriada,
Toda clara e tão antiga,
A tez que me cobre os contornos.
Carmins no rosto
Tingem um estar-sendo afoito,
De meios múltiplos,
Partidos em outros...
E outros...


A cada encontro brotam-me tulipas e gerânios.
Qualquer fagulha me ateia fogo.
E mesmo a gota hesitante
Embebe-me como um mar faria.


Em mim se encontram as águas:
A saliva doce e o sal da lágrima.
Cantam os insetos da noite,
Ecoa o alvoroço do dia.
Em mim o vento sopra,
O galho se agita,
O animal de carnes famintas ruge e agoniza.


E agora há silêncio.
Depois da festa, da banda, do beijo na esquina,
Dos tragos e toques,
Da promessa interdita...
Alheio ao que fui e ao que jamais seríamos...
Longínquo
Silêncio.


E tudo que brota nestas horas mudas
Lembra a boca que se afasta,
Oito letras de um nome que já não chamo,
Olhos que atravessam a coisa,
Feita coisa porque se ausenta
O toque que a elevaria.

São poucos cálices,
Tamanha a sede,
Tantos os adeuses que digo.
Tantas as marcas, os rastros,
Oito letras que jazem como cicatrizes,
Garras cravadas na pele eslava.


E o tempo escava, alargando o túnel.
Tamanho o túnel.
E tudo que brota nestas horas famintas
Lembra nossa beleza partida,
O eterno desfeito,
Letras interditas,
O silêncio,
Hesitante
Silêncio.


Rio, junho de 2008

26/06/2008

Escada

Le tourbillon de la vie...





Jules et Jim (1962), François Truffaut

24/06/2008

CAIXA

Frank Hovart



"Para cantar é preciso primeiro abrir a boca. É preciso ter
um par de pulmões e um pouco de conhecimento de música.
Não é necessário ter harmônica ou violão.
O essencial é querer cantar.
Isto é, portanto, uma canção.
Estou cantando."

Henry Miller - Trópico de Câncer


Algo

Pois então, meu chapa: aqui estamos. Encontro número três. Seis convites, três cafés... E é tudo o que temos até agora.
Já trabalhamos com estatísticas piores, digo a mim mesmo enquanto estudo cada flanco do salão em busca da mesa perfeita. A escolha precisa ser minuciosa. Porque existe algo nesta história.
O descrente dirá, Qualquer nova investida se repete em entusiasmo e pretensão. Concordo. Contudo, há que se respeitar um algo originado numa subida de elevador. Para ser mais preciso: algo construído ao longo da lenta, trepidante ascensão por doze andares e, meia hora depois, na descida de mais doze.
Convenhamos que deve haver qualquer coisa mística em um sujeito como eu subir e descer no mesmo elevador que uma mulher com aqueles lábios e aquele quadril...
Está certo, poderíamos ter passado incólumes pela subida... Nada além de uma vizinhança corriqueira, quase distraída. Quase, eu disse. Como não reparar em tal vizinha?! Obviamente uma caixa de dois por dois, ocupada por mais três japas engravatados, um adolescente com a cara coberta de piercings, e o ascensorista, não é ambiente propício à caça...
Agora, estamos falando de um evento excepcional: subir e descer. Descer praticamente a sós. Praticamente a sós! O ascensorista, nesse caso, contou apenas como parte do mecanismo.
A porta se abriu e a vi. De cima a baixo. Boca e quadril. Escute bem, por um instante era como se pudesse vê-los, e podia: filas de planetas ardentes orbitando ao redor daquele corpo como cães perseguindo o próprio rabo. A direção perdida, o confronto, o sussurrante chamado da morte estava lá, no quadril apenas vislumbrado numa dessas saias elegantes que descem até os joelhos, sugerindo a matéria capaz de preenchê-la com exuberância considerável, porém nunca explícita. E quem precisa ser explícita com as ancas quando dispõe de tal boca?! A mesma boca, vermelha e volumosa, se entreabriu num sorriso surpreso. Os olhos, no momento seguinte, meteram-se no vão da bolsa em busca de um telefone que vibrava. Os meus, livres, deslizaram quadril abaixo e acima...
Ela se deteve diante do aparelho que, em seguida, desligou sem atender. Logo imaginei o pobre homem por trás da chamada rejeitada. Deixaria recado, implorando retorno? Esperaria resignado até que aquela louva-deus ruiva decidisse lhe conceder a honra de arrancar sua miserável cabeça? Quando o elevador parou, ela desembarcou e estalou seus saltos pelo hall sem nenhuma hesitação, nenhuma despedida.
O descrente de novo intervirá: Certo, certo, uma boazuda ruiva no elevador, é daí?! E o que dizer de um terceiro encontro, poucas horas mais tarde, num café quarteirões distante da cena anterior?!
Hein?!
Trocamos olhares, sorrisos e telefones. Estava apressada, disse, mas Parece que o destino quer que a gente se conheça. Bingo! Nada encurta mais caminhos que o misticismo feminino. Sendo assim, sou obrigado a lhe dar todo crédito.
Veremos se dessa vez a senhora vai atender, respondi, e o celular, agora o meu, tocou. Era Marilene, a esposa – costas repletas de emplastos, narinas gotejantes em rinites eternas, lábios trêmulos, fartos de queixas – pedindo, não, comunicando que tinha de buscá-la na casa da mãe em duas horas. Esposas, assim que assinam os papéis no cartório e dizem o sagrado sim, passam a ignorar a existência de uma entidade urbana abundante chamada táxi. E experimente tocar no assunto! Agem como se tivesse cuspido na cara da Virgem Maria... Resmunguei um Aham, está certo, enquanto acompanhei, arrasado, o quadril se afastar em direção à saída.
E aqui estamos: encontro número três. Seis convites, três cafés... E é tudo o que temos até agora. Chego cedo para, calmamente, eleger a mesa perfeita. Entende-se por perfeita aquela que dará mais trabalho para o deslocamento da convidada. Gosto de vê-la se esgueirar, tropeçar, desconsertada, perdendo a pose enquanto se aproxima, certa de que a observo atento. Sei que assim chegará mais mansa. E, até que recupere a altivez, terá alma e corpo amaciados pela insegurança.
...
O quê?!
Sim, senhor, o cálculo está certo - o julgamento, não. Folgo em saber que está vigilante. De fato já caí de amores três vezes esse ano... Mas estou convencido de que existe algo nessa história, algo que...
E ela chega.
Hoje, 24 de junho, algo naquela boca e naquele quadril me diz que não estamos a mais do que quatro convites, dois cafés e um drink daquilo que poderíamos ter resolvido numa lenta, trepidante e privada ascensão de elevador.



Rio, junho de 2008


08/06/2008

Relicário


La Jetée (1962), Chris Marker

04/06/2008

Caixa

Sarah Moon


"Ground control to Major Tom:
Commencing countdown engine’s on
Check ignition and may God’s love be with you…”


Trinta



Ela quase já podia senti-los. Eles. Cada um.

Trezentos e sessenta meses. Mil quatrocentos e quarenta semanas. Dez mil e oitocentos dias. Duzentas e cinqüenta e nove mil e duzentas horas. Quinze milhões, quinhentos e cinqüenta e dois mil minutos...

Trinta anos.

No mesmo ano em que faria trinta, o trema sucumbiria. Dali pra frente, sempre que se lembrasse desse aniversário, teria de dizer “duzentos e cinquenta e nove mil”. Cinquenta! O corretor do word estranharia tanto quanto ela. E não deixaria passar por menos: grifaria em vermelho cada cinquenta, sagui, (não, ela nunca escrevia sagüi, alias, ela nem sabia que cara tem um sagüi, mas gostava da acreditar de que, se em algum momento precisasse, haveria um trema sobre ele), quinquênio (também jamais escrevera qüinqüênio, mas a qualquer momento poderia ter uma vontade súbita de escrever)...

Em uma década ela falará nostálgica dos trinta e do trema.

Bons tempos aqueles, antes da revisão ortográfica...

Quase já podia ir adiante, e, do topo dos sessenta, suspirar o tristíssimo fim do acento tão querido (trema era mesmo um acento?!). E dos melhores anos de sua juventude. Quem diria que se apegaria tanto ao trema e aos vinte e nove? Desde menina imaginava que a melhor parte começaria depois.

Não lembraria como começou a ter certeza de que a vida só seria pra valer a partir deles. Antes? Estágio probatório. Não conseguiria entender de onde tirara a idéia de que (SÓ ENTÃO!) seria uma mulher alta, , inteligente, interessante, curvilínea e bem-sucedida. E escritora. E que teria a própria casa, o próprio carro, nenhuma dívida. Nada ao redor indicava que pudesse ser alta ou escritora. A genética se encarregaria de combater uma coisa. A vida, de desestimular a outra.

Apenas uma lembrança remota. Enquanto os colegas do primário sonhavam com astronautas, bailarinas, detetives, ela perdia-se em especulações inverossímeis sobre os trinta. A irmã mais velha mentia a idade pra menos. Ela, pra mais. As amigas ficavam histéricas com a chegada dos dezesseis. Ela se entediava.
Como demorava a chegar a tal da melhor parte!!

No depois? Não pensava. Quando olhava pra frente, só conseguia vê-los. Eles: dois focos redondos e luminosos, sempre muito adiante, no fim túnel. Na sua direção é que andava.

Andou.
Estava prestes a chegar...
Menos de cento e cinqüenta mil segundos.
Logo ali, depois da esquina, à sua espera.
E agora não havia mais pressa.

Justo agora, nenhuma pressa.

Por ela, se demoraria um pouco mais naquela véspera (feito uma noiva que se atrasa).
Por ela, continuaria escrevendo cento e cinqüenta mil.




Rio de Janeiro, 04 de junho de 2008



03/06/2008

RELICÁRIO




... porque roubo descarado assim nem é roubo, é tributo...

Prelúdios Intensos para os desmemoriados do amor



I



"Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.


Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.


Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza."



Hilda Hilst, de Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão



12/05/2008

PERTENCE

(Frank Horvat)


Os sofrimentos de um jovem-novo autor


O enredo não é lá muito original: J.A.., supostamente jovem demais para atividades intelectuais sérias, revela dedicação apaixonada a certa prática estranha. Ao invés de assistir televisão, ouvir música, ir à praia, namorar, fazer as lições de matemática, está sempre agarrado a algum livro que encontrou Deus sabe onde...

Os pais não incentivam nem tolhem o impulso (embora alguns se angustiem ao notar que o filho dispensa a pelada do sábado à tarde). Os educadores, sobrecarregados, não dão a devida atenção ao evento.

E assim ele se perde, levado por mãos ocultas a lugares longínquos. Não consegue parar. Seduzido pelas palavras, é refém do capítulo seguinte. Torna-se frugal com as páginas finais, pois teme o vazio que virá junto à última. E segue, escravizado, até que seja acometido de impulsos incontroláveis: sente que pode, ele mesmo, contar histórias. E, com caneta em punho, desaguar as confusões que lhe transbordam do peito adolescente. Cedo ou tarde, J.A. descobre que pode. Logo saberá se quer e deve mesmo ser um escritor.

Em 1903, Rainer Maria Rilke sugeriu ao aspirante a poeta e militar Franz Kappus, na primeira das célebres Cartas a um Jovem Poeta, que se fizesse uma pergunta: poderia continuar vivendo mesmo privado de escrever? Caso a resposta fosse negativa, teria de construir sua vida de acordo com esse imperativo.

Ainda que a questão não pareça tão drástica para J.A, se, depois de se esfalfar com descobertas de outras ordens, o impulso continuar lhe convocando, aí o estrago está consumado. Tenha sucesso, como poucos, ou malogre, como a maioria, algo em sua trajetória é provável: ele vai sofrer.

Na melhor das hipóteses, aceitará um caminho intermediário, como o jornalismo. Jornalistas, na melhor das hipóteses, recebem salários fixos para escrever e, com a graça divina, férias, décimo terceiro e fundo de garantia. Porém, se uma espécie de vocação indomável lhe exigir que seja escritor ou pior, poeta, e todo o resto lhe causar enfado, a gravidade é maior do que J.A., nos primeiros delírios autorais, suporia.

É possível que a vida lhe reserve a mesma sorte do jovem americano Paul Benjamin. Paul publicou um livro de poesia que ninguém leu, foi faxineiro em navio, vigia de granja, fez traduções a preço de banana madura. Seu primeiro romance recebeu mais recusas do que muitos viventes dotados de uma nesga de orgulho poderiam suportar. Passou quase década e meia até que pudesse olhar-se no espelho e não enxergar somente um pseudônimo fracassado, mas ele mesmo, Paul Auster.

Não faltará quem lhe diga que escolheu um caminho espinhoso por onde transitam poucos escolhidos. Argumentarão que as editoras recebem volumes imensos de originais, e ele deveria se inscrever naquele concurso para assessor de imprensa da Eletrobrás. No entanto, quem lhe garante que sua novela, talhada ao longo de inspirados e dolorosos catorze meses, depois de esperas por respostas que nunca chegarão e uma coleção de rejeições categóricas, não será acolhida por algum editor visionário e corajoso? Afinal, o mesmo aconteceu com Samuel Beckett, Michel Houellebecq, Marcel Proust, Vladimir Nabokov, Henry Miller, Guimarães Rosa, e até com a Senhora Best Seller Agatha Christie.

Nessa trama, os mistérios são incontáveis. Como é possível que, apesar de tantos percalços, J.As. se multipliquem em escala progressiva? O que faz um autor passar pela peneira editorial? Ter os amigos certos? Oferecer seu livro aos gritos nos corredores da Bienal? Ter sido garota de programa ou forjar uma persona obscura? Aparecer na televisão? Criar um blog e torcer que seja detectado e amado entre milhares de outros? Aliás, é necessário ser publicado para ser um escritor?

Os fatos mostram que não basta ter talento quando se é um jovem-novo autor. Os termos “jovem” e “novo”, ao invés de suscitar curiosidade e sugerir renovação, provocam temor e desconfiança. Mesmo os bem-sucedidos desde o início sabem o quanto demora até que se dissocie “jovem” e “novo” de seus nomes.

E há ainda o temido tribunal da crítica (embora raros cheguem lá). O veredicto decidirá: guilhotina ou alavanca. “Bom” ou “ruim”? “Ousado” ou “pretensioso”? “Inovador” ou “previsível”? Um rapaz chamado Fernando Pessoa, por exemplo, foi a piada da imprensa lisboeta em 1915: tratava-se de um “louco de hospício”, não de um poeta. Escritores erram, claro. A crítica também.

A maioria, gradativamente, perde a juventude e continua a ser nova (pior: inédita), coleciona negativas, obseda secretárias, escritores consagrados (pede-lhe “dicas”), agentes literários. Busca outra chance. A primeira chance. Ou seja, além de paciência, perseverança, resignação, o jovem-novo autor tem de possuir uma dose de masoquismo. O editor não o quis. Ponto. Mas e se ele insistir muito?! Para Deleuze, “o contrato masoquista não expressa somente a necessidade do consentimento da vítima, mas também o dom de persuasão [...] pelo qual a vítima educa seu carrasco”. Difícil discordar.

Um dia, nem que precise dividir as despesas da gráfica, talvez J.A. publique sua novela. O que não quer dizer, em absoluto, que alguém se dará ao trabalho de lê-la e a mesma saga não se repita na próxima tentativa. Porque ele escreverá novas novelas, poemas, contos ou romances. Como em todo bom melodrama, o sofrimento é o preço a ser pago pelo amor. E J.A. é só mais um amante desarvorado e insaciável.

(Director's version...rs)

Jornal do Brasil – Caderno B de 11/05/2008


11/05/2008

ETC.

(me encontre no meio da multidão e ganhe uma broa com café
na padaria da esquina)



Tá, desisto. Quero ser mulher de jogador de futebol.
Altura: 1,75. Busto: 90. Cintura: 60. Quadril... 96, não, 98! Nunca menos que 98! Quero uma bunda épica, magnética, andar pela praia e ouvir: Deus existe!, Sangue de Jesus tem poder!, Essa é a nora que mamãe pediu a Deus! Quero que ela leve o povo ao êxtase religioso. E não tenha estrias nem celulite. Quero cabelos loiros, compridos, sinuosos e balouçantes como nos comerciais de tinturas. Ser flagrada saindo de óculos escuros do Hilton. E que paparazzis subam em telhados e chafurdem em esgotos por uma foto desfocada do meu casamento. Quero que meu divórcio seja capa de todos os jornais, revistas de fofocas e notícia em todos os programas de auditório da TV aberta. Ir ao Faustão e chorar em cadeia nacional.

Não! Quero ser o jogador de futebol! “Manoelito, El furacón brasileño”. Estrela do Real Madrid. A contratação mais cara da história do desportismo brasileiro. Mundial! Que cada bolha do meu pé seja fato de interesse público. Que um ligamento rompido provoque lágrimas e depressões. Que as empresas se engalfinhem pelo meu rosto num dos seus rótulos. E os fotógrafos nunca me deixem em paz. Que nem uma coçada no nariz lhes passe impune. Quero ouvir meu nome berrado por Galvão Bueno, discutido no botequim mais chulé e no piano-bar mais firulento. Pagar rindo o preço da fama!

Pensando bem: quero ir pro Big Brother e ser amada pelo Brasil!
Ser madrinha da bateria da Beija-Flor! Chamada de celebridade. Vestir branco pela paz. Posar pra Playboy no alto da Torre Eiffel. Entrar pra lista dos 100 mais sexy: uma colocação abaixo de Angelina Jolie e duas à frente de Scarlet Johansson.

Ser uma Super Model. “Uma” não: “A”. Quinhentos mil dólares por metro percorrido. Acha muito? Então pra você será um milhão, meu bem.
Autora de doze best-sellers? Cantora pop americana e melhor amiga da Madonna? Protagonista bonitona da novela das oito? Protagonista bonitão da novela das oito que pega a protagonista bonitona da novela das oito?!
São tantas as ofertas, os modelos de felicidade e sucesso, que não consigo me decidir. Fico tentada a experimentar todos eles. Cada dia, um.

Se for impossível?! Então quero, ao menos, tomar sol no posto 9 das dez às quatro. Passar óleo bronzeador e não bloqueador 60. Comer empada de camarão na praia sem medo. Tomar cerveja na lata sem pensar em leptospirose e banho de mar sem lembrar dos coliformes. Pedir big mac com fritas grandes, coca-cola normal e sundae de sobremesa sem culpa. E churrasco mal passado. E colocar catchup na pizza. Concordar que o Cristo Redentor é uma das maravilhas do mundo. Ser torcedora roxa de um time. Ver mais novela e ler menos coisas que me tirem o sono. Esquecer que conheci Jung, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Beckett, Pessoa, Hilda Hilst e Nietzsche. Fazer spinning, body pump, body jump, body combat. Usar mini saia (mini mesmo!). Gostar de música eletrônica (eletrônica mesmo!). Ou de axé. Entender de carros. Ter histórias pra contar sobre Londres. E alta perpétua da terapia.

Quero gritar na janela um retumbante Sim a tudo que for simples, simplório, simplista e unânime. Seguir a multidão, mesmo que ela não faça idéia pra onde diabos esteja indo. Ou só conseguir ficar alheia e sossegada. Desistir às vezes de querer ir contra o fluxo. Desistir de ser eu mesma.

1 de março, aniversário do Rio de Janeiro.

01/05/2008

RELICÁRIO



(R. Doisneau)



(F. Horvat)







"Oh não quero mais me expressar por palavras: quero por
beijo-te"



Clarice Lispector, Um sopro de Vida





... porque não prometi que pararia com os relicários, prometi?!

14/04/2008

ETC.

(Doisneau)


“O erotismo é, na realidade, um mundo com existência própria...”
Lou Andreas-Salomé.


Chovia, voltava do aeroporto, de um trânsito encrencado, me distraí e deixei o táxi passar do edifício. Quando, enfim, entrei no meu quarto, úmida e mal humorada até os ossos, li a mensagem sobre a oficina no Estação das Letras. O tema: literatura e erotismo. A professora: eu (?!).

Fixei esse dia não porque tenha boa memória, mas, acho, por conta do susto.

A reação imediata foi um “Mas eu não produzo literatura erótica!”.
Então olhei pra mesa de cabeceira e lá estava: Reflexões sobre o problema do amor e O erotismo, de Lou Andreas-Salomé. Livro que já havia lido, relido, e continuava ali, disputando espaço (a tapas, porque espaço mesmo não havia) com tantos outros não lidos ou meio lidos.

...

É, nunca produzi uma literatura que possa ser classificada como erótica (há um volume de poemas, uma narrativa lírica, que vai muito pra essas bandas, só que isso é segredo...), mas, pensando bem, o erotismo, de uma forma ou de outra, permeia qualquer enredo que contenha... gente!
Ou estou enganada?

Vendo em retrospecto, me vem à memória a descoberta de Anaïs Nin, Henry Miller, Lawrence, Sade (e Flaubert e sua Madame Bovary então?!), o estranhamento, a atração, o furor (tantas as reações possíveis) que esses sujeitos causaram naqueles quase inocentes 16, 17 anos, quando ainda morava no interior e gostava de garotos cabeludos que passavam por mim montados em... skates.

Aliás, voltando mais longe ainda, como negar o erotismo das fábulas infantis? E o quanto delirantes ficávamos nós, as menininhas, com aquele homem que vencia mil provas terríveis pra, ENFIM, beijar os lábios ansiosos da princesa?! Não fosse a certeza daquele beijo final (e de tudo o que se subentende como “final feliz”), esperaríamos por ele com tanta paciência?!

E o que dizer dos retalhos que mal cobriam as curvas da Mulher Maravilha? E das roupas apertadas dos super-heróis, exaltando músculos, expressando força, virilidade? Por que nos exaltávamos tanto, eu e as vizinhas da Antônio Neto, quando víamos e ouvíamos os rebolantes Menudos cantarolarem “Não se reprima! Não se reprima! Não se reprima!” ?!

Se focamos nos termos do erotismo e investigamos suas formas, percebemos o quanto ele é atuante.

Eros nos toca em muitas instâncias.

...

Acho que não escrevi nada até hoje, que, em algum momento, não expressasse as tensões entre desejo e impossibilidade, amante e amado, prazer e dor, vida e morte, logo...
Pois erotismo não implica, necessariamente, a nominação de órgãos, não está apenas na nudez completa (pode ser despertado por um simples tornozelo desnudo), no ato que se consuma...

Como muitas outras palavras e expressões, ele vem sofrendo de maus tratos e mau uso ao longo dos séculos. Na História da literatura, foi proibido, perseguido, deturpado, taxado como gênero menor (porque indiferenciado do que é de fato “menor” - há uma distância enorme entre Carla Peres e Isadora Duncan), algumas vezes exaltado, e, à revelia de tudo e todos, onde e quando, sempre altamente consumido.

Hoje chove outra vez no Rio e, dentro do mesmo quarto, me vejo cercada de livros sobre o assunto. Fascinada até os ossos.

Em maio começa o tal curso e lá estarei.
Nas linhas do corpo: Literatura e erotismo é o nome. Estação das Letras, o lugar. No site http://www.estacaodasletras.com.br/cursos.html#of27 pode-se encontrar tudo o que se precisa saber.

Ou pelo menos um pedacinho de tornozelo.

02/04/2008

RELICÁRIO

(Robert Doisneau)


Colecionando relicários...

Sempre sinto saudade de ter lido Grande Sertão: Veredas pela primeira vez... Dos olhos quase não acreditando: "sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte que o poder do lugar. Viver é muito perigoso"; "Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também - mas Diadorim é a minha neblina"; "enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda parte"...

Desaforos assim, o tempo todo, pulando das páginas...

“Desculpa me dê o senhor, sei que estou falando demais, dos lados. Resvalo. Assim é que a velhice faz. Também, o que é que vale e o que é que não vale? Tudo. Mire veja: sabe por que é que eu não purgo remorso? Acho que o que não deixe é a minha boa memória. A luzinha dos santos-arrependidos se acende é no escuro. Mas, eu, lembro de tudo. Teve grandes ocasiões em que eu não podia proceder mal, aindas que quisesse. Por que? Deus vem, guia a gente por uma légua, depois larga. Então, tudo resta pior do que era antes. Esta vida é de cabeça-para-baixo, ninguém pode medir suas perdas e colheitas. Mas conto. Conto para mim, conto para o senhor. Ao quando bem não me entender, me espere.”


Quem tiver a sorte de colocar os olhos ali pela primeira vez, por favor, não perca a chance...


10/03/2008

ETC.

Brandt - Portrai of young girl / 1955


“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” (C. Lispector)



Cá estamos: eu, sexo feminino, 29 anos e nove meses, cabelos castanhos (há cinco dias), oito cicatrizes nos joelhos talhadas escalando muros e caindo deles, me esbodegando com bicicletas e patins, uma pequena falha na sobrancelha direita que não lembro de onde veio, um Paula de que lembro só quando leio nos documentos, dentes alinhados pelo aparelho que tirei antes da hora (mordia errado), pele e olhos que sugerem hellos, please, look this e buenas tardes, señorita nos passeios pela orla, nos antebraços, veias que se exibem orgulhosas à enfermeira quando faço exame de sangue, e mãos, duas, inquietas, que tentam agradá-la - esta outra aqui em frente. Branca, silenciosa e reta.

Olhamo-nos. Minutos que se prolongam num leve embaraço de ambos os lados.

Começo a lhe contar a história de uma moça chamada Teresa que há três meses tenta o suicídio tomando vinagre com limão espremido de manhã bem cedo. Ouviu, em algum momento da infância, que vinagre e limão de manhã “dava” leucemia. Então, desde que...

Voltamos ao ponto de partida. Eu, ela. De repente um suspiro mútuo que vence o embaraço. E somos cúmplices como duas meninas que dormem no mesmo quarto com a luz do corredor acesa.

Nela o vazio... Em mim, as mãos imóveis...

É aí que ofereço Suélen Cristina, o travesti que tricota sapatinhos de bebê ouvindo Edith Piaf, e chora copiosamente, mesmo que não entenda nenhuma letra...

A outra, com o que lhe resta de plácido e branco, é como se me dissesse: “Tudo bem, já tá tarde”... Sorrimos, sem vontade... “Amanhã, quem sabe?”... “Ou depois”... “Aquiesce”.

Não consigo.

**

Queria contar a história de um encontro.
Um encontro inesperado entre duas pessoas que, no instante em que acontece, apaga mágoas, justifica marcas, equívocos. Um encontro que seguisse por dias, noites, avançasse meses, rompesse anos. Feito de arroubos e tédios, chopes e drinks, caldinho de feijão e sushi, gargalhadas, dores, balanços de rede, banhos de mar, água gelada, sol no rosto, decolagens e pousos, trocas de livros, bobagens, como parar na calçada diante do sinal vermelho e beijar enquanto o verde não abre. Que contivesse a chateação inevitável, e a paciência. E absolvesse com cochilos entre braços no meio da tarde, cálices de vinho, colos revezados e boa música. Que resistisse às pequenas dúvidas, ao que é difícil e confuso. Um encontro que não acabasse em bares, táxis, saguões de aerportos, aos gritos, com pretextos e mentiras. Nem de um dia pro outro, numa batida de porta. Não resultasse num sujeito apático, magro e pálido. Em telefonemas amargos, mensagens sem resposta, objetos deixados em portarias. Síndromes, consultórios, pílulas, porres, quartos de estranhos, náusea, maquiagem borrada, olheiras, insônias, maços de cigarro, pulsos cortados, coração partido. Nada disso.

Queria contar a história do encontro entre duas pessoas que continuariam se encontrando e se encontrando... Nas mudanças do tempo, que também alteram humores e traços... Duas pessoas que se multiplicariam, lado a lado. Devagarzinho... Infinitamente...



Rio, 10 de março de 2008.


13/02/2008

GAVETA

Brandt - Hampstead London

Suíte Dama da Noite

(esses teus olhos que olham e desfazem a carne em redemoinhos de espuma, em pequenas bolhas de aquário... da massa desfeita e abatida por não sei que mau pressentimento, escoa livremente culpado o mais longínquo dos desejos. é o desejo que pincela escarlates nas faces do meu rosto, que você toca delicado e hábil como se o esculpisse, e me perturba a voz, estanca a fala das coisas bonitas que diria então por uma incompatível necessidade, mas não digo por simples medo, medo turvo, branco sujo, quase sem cor... quero elogiar a beleza que vejo refletida em tuas pupilas... quero desatinar noite adentro, manhã apartada das outras manhãs do ano, dar ouvidos ao tráfego só pra depois esquecer-me dele, e delirar solta, crer-me segura e pronta, mentir tola sobre dias novos, outras noites, dias e noites inteiras e únicas porque ao teu lado, como agora, embora saiba que a noite está chegando e amanhã será como ontem. os dias serão sempre os mesmos dias de antes. antes, quando ainda não podia me enxergar em ti...)



(trecho de "Suíte Dama da Noite" - meu rebento ainda inédito, habitante indócil da gaveta)


11/02/2008

RELICÁRIO

(Doisneau - Fallen Horse)

Em tempo:
Este trecho pertence a um poema de Daniela Santi, moça que penso estar entre as melhores poetas que já cruzaram pela minha vista. Por um feliz (realmente feliz) acaso ela também é uma grande amiga (realmente grande).
Acho que não é sempre que alguém pode pensar: "sou amigo de um grande poeta".
Pois, entre muitas outras coisas, Dani me dá isso, o direito de me sentir besta de tanto orgulho. Ah, o link pro blog dela está logo ali, à direita.

"(...) Há sempre algo do tempo
Que quer voltar para o antes
Há sempre algo distante
Que se precisa alcançar
Mas de tanto se voltar
Já não está ao alcance.
Há sempre o sol, não o sono
Há sempre o medo do morto
Que de modo ou de outro
Conheceu o segredo:
Para além do branco e do negro
Sem nome, sem tempo, a ausência
Indescritível de nós mesmos.
Eis o peso.
Esse corpo que passa, desperto
Imóvel no movimento
Que não sabe se carcaça
Cavalo ou alimento
De outro imenso, calado
A nos olhar de dentro."

(Dani Santi - ma belle amie)


07/02/2008

RELICÁRIO

(Frank Horvat - Strip Tease)



"Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
"

(Hilda Hilst - Dez chamamentos ao amigo)




01/02/2008

CAIXA

Robert Doisneau - Sunday Morning


Os rapazes

– Uia, que bela retaguarda! Seguinte: a de vestido bege é minha.

– ...

– ...

– Juan, você pode pegar a de xadrez, e o Günter, a outra.

– Não! Não gostei da outra! E por que eu tenho sempre que ficar com “a outra”?!

– Fica com a de xadrez, então, cacete!

– Necas de pitibiriba, que a outra eu também não quero....E a de xadrez não faz meu tipo. Magrela demais, dá nem pra entrada... É, Serginho, tou na jogada com a de bege.

– Se tais, eu também tou, Juan!

– Ah, nem vêm, essa eu vi primeiro!

– Vimos juntos!

– É isso aí! Juntos!

– Pensem bem, camaradas: as outras vão ficar mal no jogo.

– Simples, Sérginho fica encarregado de consolar os encalhes!

– O negócio é que não dá pra todo mundo atirar pedra na mesma pomba! Espanta a bichinha...

– Pois então: fica com a de xadrez ou ca outra, e eu e o Günter caímos na boazuda.

– Vai se foder, Juan!

– ...

– ...

– Tá, como resolvemos a pendência?

– No palito?

– Alguém tem palito?

– ...

– ...

– Certo, já que os adversários não dispõem de palitos, eu fico com a de bege!


As moças

– Não olha! Não olha!

– É, não dá bandeira, Neusa!

– Mas eles tão olhando?

– Sim, olhando e falando.

– Falando da gente, tá na cara!

– Não posso nem dar uma viradinha?

– Tá, pode. Mas bem rápido.

– Hmm... Não deu pra ver direito, mas o de bicicleta eu já enxerguei por aí. Uma gracinha...

– Serginho, o nome dele.

– Você conhece, Clara?!

– Namorou a amiga da minha prima. Não vale nada.

– E os outros?

– Nunca vi mais gordos. Mas o de camisa branca é um tipão.

– Quando a Clara fala “tipão” é porque é feio.

– Tipão é tipão, feio é feio!

– Sei...

– Adorei o vestido, Clara.

– Minha mãe que fez.

– Hmm... acho que daqui a pouco eles criam coragem e vêm!

– Ai, será?

– Vêm, sim, boba.

– Cidoca, veja aqui se tem batom nos meus dentes.

– Tá linda, Neusa!

– Será que eles vão gostar da gente?

– E não? ...O Serginho é meu, tá?

– Ué, mas você não disse que ele não vale nada?

– Disse...

– ...

– ...

– ... mas pelo menos é conhecido.


Eles

– ... é pra você ver, Matias, a coisa anda difícil pras essas bandas de cá... Por isso que digo e não desdigo: os tempos são outros... tudo mudado...

– Senhor tá certo, seu Antão... Senhor tá sempre certo...




Rio, sexta de carnaval...

18/01/2008

PERTENCE

Frank Horvat - Strip Tease



E ela confessou que amava

... Ainda outro dia, nem faz muito - lembro daqueles dias como se eles apenas se repetissem, somente um único longo dia recomeçando sem fim, e era o eterno começar, não a passagem do tempo, o que me envelhecia - via sol nascer e se pôr sem distinguir um do outro, me dedicava inteiramente a transbordar numa aridez também infinita e a isso chamava “o meu jeito de existir”. Eu ainda não te conhecia.

Antes de chegar até aqui, estanquei detrás daquela primeira coluna, espionando, reparando em quem te abordava e se haveria calor na tua acolhida - talvez alguém novo, porque deve sempre vir gente nova, gente de todos os tipos, do teu tipo (é claro que ele há de existir). Mas detrás da primeira coluna o silêncio é de tumba vazia e eu tive medo, temi ser soterrada pela curiosidade sombria que tenho sobre teus passos.

Pergunta o que “ando fazendo”, e ignora o quanto me custa responder essa tua pergunta simples, que quer saber pouco: “O mínimo, por favor, para minha paz!”. O preço que ela cobra é alto porque, na verdade, tenho feito tudo e nada, assim desse jeito simultâneo que sempre te desconcertou, e então é preciso medir o peso das coisas, refletir sobre elas, ou a questão ficaria sem resposta. Atravesso os dias ora levada pelo mais absoluto torpor ora estremecida de euforia. Não, P., eu não vivo, eu oscilo.

Pois o caso é que agora a dor acorda comigo, veste-me com seus tons descolorados, resvala junto da anágua que ainda uso e me acaricia enquanto caminho assombrada até o trabalho - tão discreta com meus óculos escuros, mas doida para confidenciar a qualquer desconhecido que me nota por um instante: “Escuta, a dor agora acorda comigo. Você está vendo que pintei meus lábios de um rosa cintilante pra realçar seus contornos, pra dissimular a desordem toda que me acompanha, agora desde que acordo, e têm dias que está aqui, bem aqui, um corte que vai do ventre até a garganta, também enquanto durmo?!”

P., e há também os pesadelos. Já não posso dormir sossegada nem creio em descanso. Qualquer alívio me tem sido sonegado e quase não suporto a culpa de desconhecer o sossego das outras, a pacífica existência das outras, as faces afogueadas, o sorriso brutal das outras mulheres. E o que faço se não consigo adormecer nem suporto permanecer no alerta dos olhos que investigam a tudo?

Há sempre um cadáver que oculto, nos sonhos. Corro por corredores em ruínas e sei que há um assassinato que escondo. Mesmo não vendo meu perseguidor, corro mais e mais, até a exaustão eu corro pra apagar os rastros da morte que libertei, porque ela está exposta no meu corpo batizado em sangue, nos meus olhos de louca, no meu sorriso asmático e triunfante. Algumas vezes o enredo se transfigura: sou perseguida e não tenho culpa. Sou limpa, boa, e o sangue inocente que exponho vem de feridas minhas, minhas próprias chagas, meu próprio luto. Acordo recém-chegada da guerra, P.

Agora noto que teu silêncio se parece com aquele de há pouco, só que a tumba do teu silêncio é mais profunda. Ouve o que digo, me observa e sei que te comovo. É o choque do meu salto alto vermelho com o mármore pálido o que te perturba.

Sim, pensei muitas vezes em te procurar desde a última. Mas percebi que sempre te procurei demais. Se antes tivesse tido a coragem de discernir a urgência daquilo que não passava de uma moléstia qualquer, uma dor de dente, um choro inesperado que me despertava às dez horas de domingo quando tudo o que queria era esquecer o repouso obrigatório e débil daquela data. Se antes e sempre não fosse assim tão fraca, se não fizesse questão da fragilidade, da inocência a qualquer custo, se pudesse ter ao menos confessado que errei muitas vezes contigo, que menti tranqüilamente enquanto me conservavas num patamar tão elevado que eu, sem minhas mentiras, jamais atingiria, porque não sou capaz de alcançar sequer a sola da tua honestidade, nem corresponder a qualquer esperança tua.

Se toda vez que houvesse fraquejado, P., não corresse pro teu braço estendido como corda suspensa sobre areia movediça, se tivesse me afogado um pouco, morrido um tanto, purgado o mal que te lançava e queimava na tua inocência de corda estendida sobre meu lamaçal, de ventre em que me escondia dos medos deste mundo perigoso...

Sempre que me foi possível, evitei ter uma vida - desde a infância a vida me pareceu fatal. Ao invés dela, eu desejava com toda força a morte, o estado que me ocorria ser o mais pacífico. Para mim, não passávamos todos de uns condenados a respirar aquele ar contagioso até o sufocamento, a rezar por nós próprios enquanto assistíamos fatalidades maiores atravessarem a sina de um ou de outro, a permanecermos ali, impotentes, vendo se desprenderem como escamas os belos sonhos dos homens.

Contei, na primeira vez em que nos encontramos, e eu falei sem parar, e nem perguntei teu nome, que quando era criança via tudo de um jeito assombrado. Gastava as solas das minhas botinas na aspereza das ruas, no apetite por longes, me entregava a cada vista, ao mais banal dos objetos, a cada desconhecido que passava, e logo comecei a gostar mais dos fantasmas que dos vizinhos, dos ladrões que dos irmãos, dos personagens das fábulas lidas em segredo que das pessoas que me ultrapassavam sem me dirigir um olhar. Naquele dia soube que tua placidez de ouvinte atento (ninguém nunca tinha me ouvido com tanta delicadeza), me roubaria uma porção necessária do meu desprezo pelo mundo. “Desprezas porque temes”, me disse sempre que quis cuspir sobre o cotidiano impiedoso que é nossa maior doença, não importa a posição que se alcancemos. Eu, antes tão desatenta com o lugar que cada coisa ocupava, quando percebi, já chorava o azar alheio, cada guerra que eclodia, o desamor que renegava pálidos homens do outro lado do planeta, e te esperava desassossegada e te abraçava com uma força até então oculta, que quanto mais inoportuna mais tentadora se mostrava, pois sabia do vigor que chegaria na tua represália

Então, como fiz questão de grifar nesta minha ausência, me demorei o quanto pude. Queria que esperasse, ao menos por algumas semanas, me procurasse nas filas de bancos lustrosos, sob os vitrais que me distraíram tantas vezes do ardor de um pecado que me suplicava consumação, que arriasse as cortinas e olhasse para fora deste teu cubículo imaculado e, entre velhas beatas e a flacidez indigente das suas promessas, dos ecos inexplicáveis, enfim te flagrasse cego, sufocado de arrependimento por cada palavra de amor minha que libertou, para depois negar em tuas preces, por cada perdão que me concedeu, e nunca mais pudesse dizer, sem encarar em meu olho o teu desejo maldito de ovelha aturdida, antes de mandar-me novamente embora do teu templo: “Deus te abençoe”.




26/12/2007

CAIXA

(Bill Brandt / 1936)


...

... decerto não há o que ainda possa ser feito. Mais nada a se fazer. Nem a desfazer. Decerto o risco será eternamente o mesmo. E nenhuma garantia será dada.

Não, o desejo não se estanca.... Nem a esperança.... O estremecimento, a náusea, o descompasso, sobretudo o medo de jamais ganhar o que se quer ou sempre perder o que se tem. Mesmo que não se ganhe, nem se perca: ele persiste. Porque há desejo e espera nas entrelinhas dessa “saúde” tão perseguida. E o que é a "saúde"?!
Não, desejo e esperança, mesmo quando a decisão é negá-los.

Mesmo na morte de um e da outra... Mesmo no holocausto do sonho, na decomposição dos corpos em lembranças dia após dia após dia mais vagas - uma fagulha se desprende e ateia fogo no impossível. Um novo sim prontifica-se a contestar cada não. E outra chama matiza e aquece o escuro de cada fim. E luzes se acendem por todo o túnel. Largo, infinito túnel.

E o risco nos parece mínimo diante da recompensa. E o “sim” procria-se aqui dentro como coelhos. E tudo pode ser feito, refeito, desfeito. E...

PSSS! Vocês aí!

... vocês se beijam... Apenas isso, o tempo todo... Nunca descansam?!

Só numa pocilga beija-se tanto... Só um... Pois a culpa, a culpa é toda de... Do maldito beijo! É... Acaba-se com o beijo, acaba-se com todo o resto... Por Deus que deve haver alguma calma depois disso...

Não existe nenhuma garantia, estão me ouvindo?!

Ei! Estão me...

Não, não estão...

Beijam: nada mais existe...

...

Rio, 24 de dezembro de 2007.


CAIXA

(Lartigue - Avenue du Bois de Boulogne, Paris / 1911)


Para Márcia: minha irmã por escolha, amiga, amor, descoberta (sempre)... minha pepita...
No minuto zero dos seus 31...

Quisera já ter-te dado meus olhos,
Parte do que posso ver
Em paga por o que me faz enxergar.

Quisera já ter carregado teus fardos,
Abrandando-te o peso dos ombros,
E sabido a palavra certa,
Fagulha que incendiasse a descrença,
Nascente que saciasse tua sede.

E tudo, tudo seria pouco.

Quisera que atinasses o tamanho
Desse amor que se expande
Em cada menção do teu nome.

(E não há tamanho que o alcance)

Não existe começo
E, por mais que se prolongue o adiante,
Nem fim.

É de lonjuras,
De sempre-renovado-júbilo
A idéia de ti
Em mim.
Saber-te teia exposta ao vento,
Fortaleza e templo.
Saber-te preciosa,
Precisa,
Hesitante.
Ouvir-te o riso,
Suspeitar-te a lágrima,

E lembrar... ah, lembrar...
Risos ecoando pela sala,
Vinhos, cafés e Bethânias
A temperar descobertas,
Deflorar segredos,
Ruir muros...
Nossos rostos tristes nos últimos dias...
O silêncio doído na manhã da partida....
E a certeza imensa de que não há partida
Ou distância que abrande
A irmandade que se descobre.
Não qualquer uma:
A tua.



Rio, 26 de dezembro de 2007.

20/12/2007

PORTA

(Helen Levitt - Wise Guy/1945)


PEDRO
Prefere garotos porque são mais fracos.

RUBENS
Escolho garotos porque são mais tenros.

PEDRO
Quantos dormiram com você por um papel?

RUBENS
Sabe que nunca fiz essa conta?

PEDRO
Quantos porque realmente lhe amaram?

RUBENS
Oh, por favor...

PEDRO
Também não fez essa conta?

(trecho de Três Vias - teatro/ 2006)


13/12/2007

ESCADA

(Lartigue - My hydroglider with Propeller - 1904)



Contente adj.2g.: 1 cujos desejos, aspirações, exigências etc. foram atendidos ou realizados; satisfeito 2 tomado por sentimento de alegria, de felicidade; alegre.





12/12/2007

RELICÁRIO

(Bill Brandt - Street Scene)



Z: Se eu te dissesse meu nome, eu morreria.

M: Mesmo se você morrer... Me diz seu nome ainda assim...



(Bernard-Marie Koltès - Roberto Zucco)




11/12/2007

CAIXA

(Robert Doisneau - Fortune Teller)




...

É preciso que o senhor entenda: estas cartas nunca mentiram.

...

Eu? Sim, muitas vezes.

...

Por compaixão, claro, mas também... em breves acessos de maldade... porque me desagradava dizer o que era certo... porque me comprometeria, ou mesmo por uma aversão súbita ao rosto que me consultava. Acha perverso?

...

Não me agradam as súplicas, não, senhor. O cachorro que pede osso sob a mesa nem sempre tem fome. Mesmo assim, abana o rabo e suplica. É o focinho que guia seu anseio, não o vazio da barriga.

Pois sou capaz de oferecer nacos da carne mais nobre para o homem que se mostrar independente desse gesto. Sou capaz de profetizar o destino mais longínquo àquele que crer verdadeiramente no hoje. Apenas no hoje.

Olho nos seus olhos agora. Não preciso me voltar para as cartas. Vejo que o senhor sofre, se angustia, não acha sentido no trabalho, receia não ter amigos, não conhecer o amor, o conforto de uma família. Vejo que dorme mal e prova o que há de mais funesto no mundo dos sonhos. Neles, vaga entre estranhos, perde-se em neblinas, reencontra laços antigos e sente que nunca os apreendeu. Estou errada? Acorda com um fastio que pouco a pouco torna-se hábito. Como o café que prepara em seguida. E o fastio acompanha cada ínfimo ato do dia... O café, a seção de esportes, o computador, quente, frio, sol, chuva, almoço, rua, o jantar, o chope depois do expediente, a casa vazia, mesmo cheia... O senhor olha pela janela e quer recuperar alguma esperança. Às vezes encontra... e logo deixa que lhe escape. Repete-se em paixões que não duram porque não acredita na duração e precipita cada fim para provar que estava certo. E o senhor ama, não ama? Vê-se que ama. Tem o fundo dos olhos dos que amam... e a boca dos que condenam o amor pelo cinismo. E nada lhe convém. Nada lhe satisfaz. O senhor é seu empregado mais moroso e indolente. Presta-se desserviços, conspira, mas um certo acordo afetivo lhe impede de tomar providências. Algo lhe sugere que isso o distingue daquele resto que despreza mais que a si mesmo. E está tão enganado...

...

Não, não são as cartas. Quem me diz o que vejo agora é somente o seu rosto. Posso ler tudo o que estiver escrito. Mesmo no invisível se inscrevem coisas. Posso ler seus ombros, o movimento das suas mãos, seu olhar, tanto se me foge quanto se me fixa. E as cartas, também, se ainda quiser.

...

Não? Então o senhor desiste das cartas? ... Faz bem...

...

Por que digo isso tudo? É meu último consulente. Mais quinze, trinta dias e... eu morro, fazer o quê? Mas antes de morrer quero conhecer Miami. Viajo amanhã.

...

O quê? As cartas? Não, nunca pra mim. Foi o doutor. Dos bons... Faço vista grossa, sabe? Deus me livre de me embrenhar nesses labirintos do futuro. Sou do cada passo. Tomo meus tragos, amo meus homens, crio meus bichos, e se for pra morrer, que seja, não fujo... Mas morro em Miami.

Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 2007.

09/12/2007

CAIXA

(Frank Horvat - Strip-tease)



Ela:
Entre nós haverá sempre o espaço infinito,
Um “talvez” no futuro...
Acima: céus em cascata; abaixo: buracos, abismos...
Entre nós, sempre aquele acerto possível...
E, no entanto, o impossível...
Teus silêncios aos gritos.
Meu verbo sem eco.

Entre nós, o adeus que te disse...
E o que nunca me dizes.


A mágoa tua, a fome minha...
Entre nós, o Tempo!
Um muro.
E frestas
Que preencho ainda
Com a mais ilegítima esperança.


PORTA

(Liane Venturela e Sandra Dani - Calamidade - Teatro Renascença - POA/ 2006)


LEONORA
Gentileza? Sei... Desde que me trouxe de volta pra cá você só quis uma única coisa, Christa... Tão desocupada com aquele maridinho mequetrefe que arranjou... um corpo tão bom, um rosto tão fino e entregou tudo de mão beijada a um contador. Um contador! Onde fomos parar!? Um homenzinho de mãos suadas e dedinhos nervosos, um hálito morno, desagradável de tantas maneiras... Você não sabe o que é a vida. Não quis ficar comigo, se enfurnou em qualquer quartinho pulguento de pensão, porque comigo... ah! comigo era a vida! Comigo era viver ou viver, meu bem, e você, você nunca pôde com a vida... ficava entupindo Bernardo de mingau e lhe tomando a tabuada. “A tabuada, Bernardinho”. Tinha horror do talento do Bernardo pra música. Ficava pra morrer quando nos via dançando na sala, e só não se juntava a nós porque dançar não combinava com sua “triste figura”... Não podia ver homem... Homem nenhum entrava naquele apartamento sem ter de se confrontar com a pequena fera que se criava ali, como se fosse, não porque alguém quis que fosse assim, não, ninguém te obrigava a nada, mas por uma condição natural, como se fosse um cão violento, um cão pronto pra atacar quem invade o seu território, porque o cão finge que protege o território do dono, o homem acredita numa fidelidade canina e nem imagina que, em verdade, se checar a cadeia, faz parte dos domínios de um cão.

CHRISTA
Um cão, você disse?

LEONORA
É, é isso mesmo. Quando chegou naquele apartamento era um filhotinho ainda, chegou cheia de susto no território novo, mas, filhote ou não, já era um desses cães que atacam, mais cedo ou mais tarde mordem alguém, e é pra matar que mordem. Fazia pose de boa menina. Pedia desculpas. Nunca conheci alguém que pedisse tantas desculpas. As minhas empregadas, se quebravam um cristal, reportavam o acontecido e iam terminar o almoço. Você pedia perdão por passar pela sala enquanto eu lia uma revista! Parecia uma desgraça ambulante. Acha que não percebia que o que sempre quis foi me deixar consumida de culpa por você se sentir um acidente? Mas eu jamais te dei esse gosto!

CHRISTA
(Sentando-se diante da penteadeira, olha-se no espelho. A imagem que se projeta para a platéia é a de Leonora, pela primeira vez em cena sem maquiagem, os cabelos caindo-lhe sobre os ombros.) Você é boa nisso, mãe. Um cão... É... talvez seja mais fácil ser um cão do que alguém. Tão mais simples lamber as mãos do dono. Se prostrar diante da porta dos fundos e esperar que qualquer um lembre de estalar os dedos, jogar um osso, e afagar, na passagem, o focinho que recebe com a mesma gratidão o toque dos dedos ou da sola do sapato. Você não deixa de ter razão... Um dia me olhei no espelho e percebi que tinha os mesmos olhos do cão de um carroceiro que passava todas as tardes pela frente dessa casa. O homem era muito magro, tinha a pele toda um pouco despregada da carne, como se há tempos tivesse o que cobrir, mas já não passava de um trapo velho, quase indecente, porque debaixo dela já não existia um homem... O cachorro era parecido com o carroceiro, ou pior, tinha o rabo quebrado, uma pata meio manca que só de vez em quando conseguia tocar o chão, um olho meio cego de catarata, um que outro caco de dente. Quando parava de repente pra se coçar, porque também era sarnento que dava dó, não demorava até que levasse uma varinhada nas costas. A gente tinha pena, ficava com raiva do carroceiro, mas sabe que o danado do cachorro parecia que nem se importava? Sabe-se lá se a tal bordoada não era a motivação que precisava pra continuar andando... Pensando agora, talvez o cão tivesse pena do carroceiro. Devia olhar pros outros homens e sentir tristeza de ver aquele sujeito sem peso, quase que sem dimensão, cujo único momento de soberania era aquele em que podia lhe açoitar. Ser um cão é mais fácil que ser alguém.

(Trecho de Calamidade - teatro/ 2005)


ESCADA

(Frank Horvat - Strip-tease)



Desejo s.m.: 1 ato ou efeito de desejar; aspiração humana diante de algo que corresponda ao esperado; expectativa consciente ou inconsciente de possuir ou alcançar determinada situação que supra um sentimento de falta ou incompletude; querer, vontade.


diz o dicionário
...

GAVETA

(Callahan - Eleanor/1949)



Ávida, mordo o cactos,
Busco o sumo, o riacho de dentro.
Sede infinita neste abismo da boca
Que agora rasgam os espinhos.
Dura carapaça - não lhe atravessam os dentes,
Mas nasce sobre a língua um vertente doce,
Lasciva e quente
(Meu sangue?)
Toma o curso da garganta,
Alcança o peito,
Espaço por espaço
Me inunda.

Lá, à deriva, flutuam mortos:
Os de casa - pai e mãe, agora sem gritos, oito irmãos, Alice e suas gemadas
(“Olha aqui na carne do olho: sempre anêmica, essa menina!”)
As vizinhas - Juliana, loira e rude; Helena, a mais invejada; Cristiane, metade minha, toda timidez e estranheza.
Ele.
Eu mesma - medo do escuro, mágoa antiqüíssima, matiné de domingo, taça de arlequino,
Meninos lá, além: paisagem distante...

E, entre todos, me abraça e conforta
(Dentro, fora, no entorno...)
Uma outra:
Eu renascida
(nascente expandida),
Gota escaldante
Desaguando num mar,
Num desconhecido...

JANELA

(Artaud - A Paixão de Joana D'Arc - 1928)

“O mais urgente não me parece tanto defender uma cultura cuja existência nunca salvou qualquer ser humano de ter fome e da preocupação de viver melhor, mas extrair, daquilo que se chama cultura, idéias cuja força viva é idêntica à fome.

Acima de tudo precisamos viver e acreditar no que nos faz viver e em que alguma coisa nos faz viver – e aquilo que sai do interior misterioso de nós mesmos não deve perpetuamente voltar sobre nós mesmos numa preocupação grosseiramente digestiva. (...) Todas as nossas idéias sobre a vida devem ser retomadas numa época em que nada adere mais à vida. E esta penosa cisão é a causa de as coisas se vingarem, e a poesia que não está mais em nós e que não conseguimos mais encontrar nas coisas reaparece de repente, pelo lado mau das coisas; nunca se viram tantos crimes, cuja gratuita estranheza só se explica por nossa impotência para possuir a vida.

Se o teatro é feito para permitir que nossos recalques adquiram vida, uma espécie de poesia atroz se expressa através dos atos estranhos onde as alterações do fato de viver demonstram que a intensidade da vida está intacta e que bastaria dirigi-la melhor.”

Antonin Artaud – O teatro e seu duplo